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Quinta · 18 de junho de 2026 · Edição #80
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Bom dia. A nova onda da longevidade é uma corrida para construir a tecnologia e descobrir a ciência que vão ajudar o mundo a viver mais e melhor. O Brasil tem tudo para ser protagonista nessa corrida, nossa população está entre as mais diversas do planeta e o país é um celeiro de cientistas, pesquisadores e inovadores. Recentemente, Steve Horvath, criador do primeiro relógio epigenético, em entrevista à Rhonda Patrick, citou o trabalho de Lucas Camillo, jovem cientista brasileiro radicado em Cambridge que já apresentamos aqui. É um entre muitos exemplos.
  Resumo da edição
🧬 Envelhecer ao contrário: Pela primeira vez, um paciente recebeu uma terapia desenhada para rejuvenescer células humanas, a reprogramação epigenética parcial do ER-100, da Life Biosciences, empresa cofundada por David Sinclair. O texto mostra o que a técnica é, baseada no trabalho premiado de Yamanaka, ainda estamos no começo, é um olho, uma pessoa, um estudo de fase 1, ainda longe de provar a reversão do envelhecimento, mas um passo importante.
🧭 O erro mais caro sobre longevidade não é médico. É comportamental: A psicóloga Priscilla Camilo mostra por que sabemos o que fazer pela saúde e ainda assim adiamos. A mudança que dura não vem da orientação correta, mas de ligar as escolhas do dia aos valores que importam, e a longevidade vira menos uma recomendação e mais uma decisão pessoal.
💪 Quanto de treino de força para viver mais: Um estudo de Harvard com 147 mil pessoas, no British Journal of Sports Medicine, achou a faixa de melhor retorno do treino de força, 90 a 120 minutos por semana, com menos mortes. Acima disso o ganho estabiliza. É associação, não prova, e diretrizes como a do ACSM já pediam pelo menos dois dias por semana, somados ao exercício aeróbico.
📰 Notícias da semana: A Cellares levantou US$ 277 milhões com a entrada da ARK na fabricação de terapias celulares; a C2N leva seu exame de sangue para Alzheimer à América Latina e ao Brasil; um teste de 14 proteínas previu câncer de pulmão anos antes; o FDA liberou o primeiro monitor de glicose de venda livre para crianças; e a MitoRx mostrou um composto para obesidade que age na mitocôndria, não no apetite.
📚 Vale Saber: Uma passagem de Sêneca, de Sobre a Brevidade da Vida, sobre o tempo que desperdiçamos, já que não temos pouco tempo, perdemos muito dele.
  REJUVENESCIMENTO
Envelhecer ao contrário

Por muito tempo, fazer uma célula velha voltar a se comportar como jovem foi um truque que só funcionava em camundongo. Agora foi tentado em uma pessoa. No dia 9 de junho, a Life Biosciences, empresa fundada pelo geneticista David Sinclair, de Harvard, anunciou ter aplicado no primeiro paciente uma terapia desenhada para rejuvenescer as células do olho, a primeira reprogramação epigenética parcial a chegar a um corpo humano.

A ideia nasceu no laboratório do próprio Sinclair. Em 2020, a equipe dele mostrou, na Nature, que ligar três genes nas células da retina de camundongos devolvia um padrão jovem de funcionamento, regenerava o nervo óptico e recuperava a visão de animais com glaucoma e de bichos velhos. Esses três genes vêm de uma descoberta do japonês Shinya Yamanaka, que lhe rendeu o Nobel de Medicina de 2012. Ele mostrou que um quarteto de genes consegue fazer uma célula adulta voltar a se comportar como uma célula-tronco, daquelas que ainda podem virar qualquer tecido do corpo. Esse retorno completo é poderoso e arriscado, porque uma célula que recua longe demais pode perder o rumo e virar tumor. A terapia usa o coquetel pela metade, para rebobinar um pouco o relógio biológico da célula sem apagar o que ela é, um neurônio continua neurônio. Por trás disso está uma hipótese que Sinclair defende, a de que envelhecer é em parte perder informação, como riscos que se acumulam num disco, e que a leitura mais jovem continua guardada em algum lugar, à espera de ser recuperada.

O ER-100 entrega esses três genes nas células ganglionares da retina, os neurônios que levam a imagem do olho ao cérebro, usando um vírus modificado como entregador. Por isso o quarto fator de Yamanaka, o c-Myc, o mais ligado ao câncer, ficou de fora de propósito. E os três genes não ficam ligados o tempo todo. Eles só entram em ação enquanto o paciente toma doxiciclina, um antibiótico comum, por oito semanas, e depois se calam. O olho foi escolhido porque é um território fechado, fácil de alcançar e com função simples de medir. O ensaio mira duas causas de cegueira, o glaucoma de ângulo aberto e a NAION, uma espécie de infarto do nervo óptico.

Aqui na News, a gente gosta de medir o tamanho real de um passo desses com sobriedade. Este é um estudo de fase 1, a etapa que pergunta se o tratamento é seguro e bem tolerado, com um único paciente aplicado até agora e um segundo grupo pequeno por vir. Trata um olho, não o corpo inteiro, e busca devolver função a neurônios doentes numa doença específica, não tornar a pessoa mais jovem. O interruptor de doxiciclina e o oncogene deixado de fora não são detalhes de bastidor, são a cautela embutida no projeto. É um teste da hipótese de Sinclair, não a prova dela.

Há três semanas, na edição 77, o Dr. Ricardo di Lazzaro fechou seu texto com uma pergunta, "estamos ficando ótimos em fazer ratos viver mais, quando faremos o mesmo conosco?", e citou justamente essa terapia como uma das apostas em cima da mesa. A resposta chegou antes do que a pergunta esperava. O que faz o olho importar para além do olho é exatamente isso, se for possível reativar com segurança neurônios velhos numa pessoa e vê-los voltar a funcionar, a ideia deixa de ser um slide de congresso e passa a ser um fato clínico mensurável.

A distância entre um olho e um corpo inteiro é enorme, e vai ser medida em anos, em estudos maiores e mais lentos que este. Mas, pela primeira vez, essa distância está sendo medida em uma pessoa, não em um camundongo. A reprogramação saiu do laboratório e entrou na vida de alguém.

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  A voz do especialista
O erro mais caro sobre longevidade não é médico. É comportamental.
PC
 
Texto escrito por
Priscilla Camilo
Psicóloga, mestre em ciências da religião, especialista em neurociência da produtividade e performance humana.

Existe uma pergunta que investidores experientes costumam fazer antes de tomar uma decisão importante:

Qual será o custo de não agir?

Curiosamente, essa mesma pergunta raramente é feita quando o assunto é saúde. Planejamos a aposentadoria financeira. Protegemos patrimônio. Diversificamos investimentos. Pensamos em décadas. Mas, quando o assunto é longevidade, muitos vivem como se o futuro fosse um problema distante. E talvez esse seja um dos maiores paradoxos do nosso tempo.

Nunca tivemos tanto acesso à informação sobre saúde. Sabemos da importância do sono, da atividade física, da alimentação adequada, do gerenciamento do estresse e da prevenção. Ainda assim, milhões de pessoas continuam adiando mudanças importantes. Por quê? A resposta pode ser desconfortável. Porque o problema raramente é falta de conhecimento. O problema é comportamental.

Na Medicina do Estilo de Vida, cresce a compreensão de que prescrever uma mudança nem sempre é suficiente. Antes de mudar um comportamento, muitas vezes é preciso despertar um motivo para mudá-lo. Afinal, ninguém sustenta por muito tempo algo que não faz sentido para a própria vida. É aqui que a psicologia pode oferecer uma contribuição valiosa.

Na ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso), entendemos que mudanças duradouras não acontecem apenas porque alguém recebeu uma orientação correta. Elas acontecem quando a pessoa consegue conectar suas ações diárias aos seus valores mais importantes. Não caminhamos porque um profissional recomendou. Caminhamos porque queremos continuar presentes para quem amamos. Não cuidamos da alimentação apenas para melhorar exames. Cuidamos porque desejamos ter energia para viver com autonomia. Não fazemos exercícios apenas para evitar doenças futuras. Fazemos porque existe uma vida que queremos continuar construindo.

O desafio é que nossa mente costuma operar na direção oposta. Ela privilegia o conforto imediato. Adora recompensas rápidas. E tende a empurrar para amanhã aquilo cujos benefícios só aparecerão anos depois. "Quando esse projeto terminar." "Quando a empresa estabilizar." "Quando eu tiver mais tempo." "Depois eu cuido disso."

A procrastinação da longevidade raramente parece procrastinação. Ela costuma se apresentar como prioridade profissional, agenda cheia ou excesso de responsabilidades. Mas existe uma pergunta importante:

Quem será a pessoa que chegará ao futuro que você está construindo hoje?

Porque muitas pessoas investem décadas construindo patrimônio, mas dedicam pouco tempo à construção da própria capacidade de usufruí-lo. Sem perceber, o que está sendo adiado não é apenas uma caminhada no fim da tarde. Não é apenas uma consulta médica. Não é apenas uma mudança alimentar. Estamos adiando vitalidade. Estamos adiando autonomia. Estamos adiando anos de vida saudável. Estamos adiando a liberdade de continuar escolhendo como viver.

Talvez por isso a longevidade não seja apenas um tema médico. Ela é uma questão de valores. De direção. De compromisso com a pessoa que desejamos nos tornar.

No fim, a pergunta mais importante não é:

"O que eu deveria mudar?"

Mas sim:

"Que tipo de vida eu desejo viver nos próximos 10, 20 ou 30 anos?"

Porque quando a longevidade deixa de ser uma recomendação médica e passa a ser um valor pessoal, algo muda. A mudança deixa de ser uma obrigação. E passa a ser uma escolha. Pequena. Diária. Imperfeita. Mas alinhada com aquilo que realmente importa.

Talvez o erro mais caro sobre longevidade não seja ignorar uma informação. Talvez seja continuar adiando a vida que você gostaria de ter no futuro.

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  Ciência na prática
Quanto de treino de força para viver mais

Treino de força ajuda a viver mais, e agora há uma boa estimativa de quanto. Um estudo da Escola de Saúde Pública de Harvard, publicado em junho no British Journal of Sports Medicine, acompanhou 147.374 pessoas por cerca de 30 anos e achou um ponto de melhor retorno. De 90 a 120 minutos de treino de força por semana associaram-se a 13% menos risco de morte por qualquer causa, e treinar além disso não somou mais anos.

Na mesma faixa, o risco de morte por doença cardiovascular foi 19% menor, e o de morte por doença neurológica, como Alzheimer, 27% menor. O menor risco de todos apareceu em quem somava a força a uma boa dose de exercício aeróbico, o que coloca a força e a capacidade aeróbica como parceiras, não como rivais. Na prática, isso são duas ou três sessões por semana, algo que cabe até numa rotina cheia de trabalho.

Faz sentido fisiológico. Músculo treinado é tecido metabolicamente ativo, o principal local de captação de glicose e uma reserva de proteína para atravessar doenças, lesões e internações. A partir de certo volume o corpo já recebeu o estímulo de manutenção, e cada minuto a mais rende cada vez menos, o que ajuda a explicar o platô que aparece nos dados.

O cuidado aqui é específico, não geral. Que treino de força faz viver mais e melhor não está em dúvida. A Organização Mundial da Saúde e o Colégio Americano de Medicina do Esporte, que renovou suas diretrizes em 2026, já recomendam fortalecer os grandes grupos musculares em pelo menos dois dias por semana. O que é observacional, e por isso menos firme, é a curva fina da dose, esse 90 a 120 minutos exato. Visto assim, o estudo não descobre que força importa, ele coloca minutos no que as diretrizes já pediam, e deixa claro que dois dias por semana de força pararam de ser um luxo e viraram quase obrigação.

Uma ressalva importa. O estudo olhou o tempo de força que cada pessoa relatou, sem comparar modalidades. Ele diz quanto, não qual, e nem todo treino de força é igual. Se o ganho vem do mesmo jeito da musculação, do treino funcional ou de um esporte de força, o dado não responde. A parte que outras evidências sustentam é a mais geral, trabalhar os músculos algumas vezes na semana, e isso você faz onde preferir, inclusive longe da academia.

Já mostramos, na série de força de abril, por que o músculo é reserva para a vida. Este novo dado fecha a conta do "quanto". O piso é baixo, está ao seu alcance, e rende ainda mais somado ao aeróbico.

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  Notícias da semana
💡 A Cellares fechou uma rodada de US$ 277 milhões com a entrada da ARK Invest, de Cathie Wood, ao lado de BlackRock e do fundo da família Gates. A empresa não inventa remédios, ela automatiza a fabricação de terapias celulares, o gargalo que hoje limita esses tratamentos a poucos pacientes. É aposta em infraestrutura, não em cura nova, mas mostra onde o capital acredita que está o próximo limite.
💡 A C2N Diagnostics vai expandir seu exame de sangue para Alzheimer pela América Latina, e chega ao Brasil por uma parceria separada com o Grupo Fleury. O teste estima placas de amiloide pelo sangue, no lugar de exames de imagem caros e raros. Não é tratamento, é diagnóstico mais cedo e mais barato, numa região com poucos especialistas e quase nenhum exame de imagem de amiloide.
💡 Um exame de sangue com 14 proteínas previu câncer de pulmão mais de cinco anos antes do diagnóstico, num trabalho na revista Cell com mais de 80 cientistas. Em seguida, num ensaio, um anticorpo que reduz a inflamação diminuiu os casos da doença justamente no grupo de maior risco. Ainda é cedo para o consultório, mas abre um caminho de prevenção, não só de diagnóstico precoce.
💡 O FDA liberou o primeiro monitor contínuo de glicose de venda livre para crianças, o Stelo, da Dexcom, para maiores de dois anos que não usam insulina. O adesivo lê o açúcar pelo celular a cada quinze minutos. É a expansão de um produto que já era vendido a adultos, não novidade absoluta, mas confirma o monitor de glicose virando item de prateleira, e não só de hospital.
💡 A biotech MitoRx mostrou dados de um composto para obesidade que age na mitocôndria, e não no apetite. Em camundongos, a perda de gordura foi comparável à dos remédios atuais, sem reduzir a comida e sem perder músculo. São dados pré-clínicos, de animal e da própria empresa, mas apontam uma rota diferente da dos GLP-1, mexendo no motor metabólico da célula.
  Vale saber
Sêneca, "Sobre a Brevidade da Vida" (c. 49 d.C.)
  "Não é que tenhamos pouco tempo, mas é que perdemos muito. A vida que recebemos não é curta, mas tornamo-la tal; nem somos mal aquinhoados de tempo, mas dele somos pródigos."
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