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O fenômeno da religião e da espiritualidade foi tema do meu mestrado. Na época, o que mais me chamava atenção não era a fé em si, mas o que vinha grudado nela: culpa, falta de perdão, falta de sentido. Eram fenômenos recorrentes, apareciam em quase todo relato, independentemente da crença de cada pessoa. E esse tema nunca saiu dos meus atendimentos. Não importa se a pessoa se dizia religiosa, agnóstica ou "nada disso, doutora", em algum momento da terapia, quase sempre surgia uma pergunta que não cabia só na psicologia: "qual é o sentido de tudo isso?" Por muito tempo, tratei isso como um tema existencial. Importante, sim, mas distante da minha outra grande obsessão clínica: entender por que algumas pessoas envelhecem com mais saúde, mais leveza e mais tempo de vida do que outras. O que eu não esperava era descobrir, ano após ano, que esses dois fios, sentido e longevidade, estavam entrelaçados o tempo todo. E não é só percepção clínica. Em fevereiro deste ano, saiu um estudo que me fez revisar tudo que eu pensava saber sobre o assunto. O estudo que mudou a pergunta Foi conduzido por Harvard T.H. Chan School of Public Health e publicado na JAMA Psychiatry. Quem liderou foi o Dr. Howard Koh, professor de liderança em saúde pública, o mesmo pesquisador que, em 2024, já havia coautorado um estudo tratando a espiritualidade como determinante de saúde, ao lado de nomes como Tyler VanderWeele. Esse novo estudo não é uma pesquisa nova do zero. É uma metanálise: uma síntese cuidadosa de dados de cerca de 500 mil participantes, reunidos de 55 estudos conduzidos desde o ano 2000. Ou seja, não é uma amostra pequena nem um achado isolado, é duas décadas de evidência sendo colocadas lado a lado. E aqui é onde a curiosidade começa a apertar: o que exatamente esse volume gigantesco de dados revelou? A primeira pista, e ela engana A resposta óbvia seria: "pessoas espirituais vivem mais porque têm fé, esperança, um propósito maior." E sim, isso aparece nos dados, a literatura associa espiritualidade a menos depressão, menos risco de suicídio e melhor mortalidade geral. Mas essa não é a parte mais interessante. A parte mais interessante é o que aconteceu quando os pesquisadores foram atrás do mecanismo, ou seja, não só "espiritualidade está associada a mais saúde", mas por onde essa proteção passa. E o que encontraram desmontou uma ideia que eu, particularmente, carregava há anos. A tese contraintuitiva A gente costuma pensar em espiritualidade como algo abstrato: crença, fé, transcendência, algo que "acalma a alma" e, por tabela, favorece o corpo. Uma espécie de bônus emocional. Só que o estudo de Koh aponta outra direção. Ele mostra que práticas espirituais amplas, que vão de frequentar serviços religiosos a meditar ou orar, estiveram associadas a 13% menos risco de uso nocivo de drogas, álcool ou tabaco. E quando o recorte era só frequência religiosa regular, essa redução subia para 18%. Ou seja: o benefício não aparece só como "sensação de paz" ou "conforto existencial" flutuando no ar. Ele aparece como comportamento protetor concreto, menos consumo de substâncias que, sabemos, corroem anos de vida. A espiritualidade, nesse recorte, não é o que você sente. É o que você deixa de fazer consigo mesma. Essa inversão muda a pergunta clínica que eu fazia há anos. Eu perguntava: "que sentido essa pessoa está construindo?" Talvez a pergunta certa seja: "que comportamento esse sentido está sustentando, ou deixando de sustentar?" E o giro final Tem uma frase do Koh, na entrevista sobre o estudo, que resume o ponto mais contraintuitivo de todos, e que quebra uma suposição que quase todo mundo faz sem perceber. Ele separa, com todas as letras, espiritualidade de religião. Diz que um número crescente de pessoas hoje se declara "espiritual, mas não religiosa", e que isso, por si só, já parece contar para os desfechos de saúde observados. Na visão dele, a espiritualidade pode envolver religião, mas não depende dela. Ou seja: você não precisa de uma instituição, um templo ou um dogma para colher esse benefício. Precisa de prática: orar, meditar, se reunir com propósito, se conectar com algo além de si. Isso muda como eu escuto, na sessão, quando alguém diz "eu não sou religiosa, mas...". Porque, pelos dados mais recentes que temos, esse "mas" pode estar carregando mais proteção biológica do que a gente supunha. E se a longevidade não depender do que você acredita, mas de como você pratica o que acredita? |
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