Na edição 73, contei que, em 2026, o FDA, a Anvisa dos Estados Unidos, tirou da bula da reposição hormonal os alertas mais graves, sobre câncer de mama, demência e doença do coração. Um passo muito importante para milhões de mulheres. A decisão agora fica com os médicos e, para quem decide fazer, a pergunta seguinte é de que jeito. Um estudo dinamarquês publicado em 23 de setembro no BMJ mostra que o risco de coágulo da reposição é baixo, e a forma de usar e a dose podem deixá-lo mais baixo ainda.

A autora Julie Berggreen e colegas, de hospitais da região de Copenhague, usaram os registros de saúde da Dinamarca. Entre cerca de um milhão de mulheres de 50 a 69 anos, separaram as que tiveram coágulo nas veias (trombose na perna ou embolia no pulmão), AVC por artéria entupida ou infarto, e compararam com mulheres da mesma idade que não tiveram, olhando quem usava hormônio. Quase todas as usuárias tomavam estradiol, o tipo de estrogênio mais receitado hoje.

Entre as mulheres que não usavam hormônio, cerca de 16 em cada 10 mil tiveram coágulo nas veias por ano. Esse é o risco natural, e é com ele que se compara o resto. Usando em forma de comprimido, foram cerca de 25 em cada 10 mil, ou seja, 9 a mais, perto de um caso a mais a cada mil mulheres por ano. O aumento apareceu em qualquer dose e foi maior na dose alta, acima de 1 mg de estradiol por dia. Com o gel e o adesivo, formas que levam o hormônio pela pele, o número ficou no mesmo nível de quem não usa hormônio, em qualquer dose e tempo de uso. AVC e infarto seguiram a mesma lógica. No comprimido, esses dois só aumentaram com a dose alta usada por muito tempo, mais de um ano no caso do AVC e mais de cinco no do infarto. Com gel e adesivo, não aumentaram. Houve uma única exceção, frágil demais para levar em conta.

Por que a forma de usar faz diferença? Quando a mulher engole o comprimido, o hormônio passa primeiro pelo fígado, e o fígado responde fabricando mais das proteínas que fazem o sangue coagular. No gel e no adesivo, o hormônio entra pela pele e vai direto para o sangue, sem essa passagem. É a explicação que os autores dão, principalmente para o coágulo nas veias. O estudo tem limites. Ele só observou as mulheres, não tinha dados de peso e cigarro, deixou de fora quem já teve trombose e não avaliou a progesterona natural nem os benefícios da reposição, como o alívio das ondas de calor.

O risco de coágulo não é igual para todas as mulheres. Ele é maior com a idade, com obesidade, com o uso de cigarro e quando há casos de trombose na família, e quanto maior esse risco, mais casos o comprimido acrescenta. Por isso a diretriz brasileira de saúde cardiovascular na menopausa, da Sociedade Brasileira de Cardiologia com a Febrasgo e a SOBRAC, recomenda preferir gel ou adesivo para mulheres com obesidade, colesterol alterado, diabetes ou síndrome metabólica. O estudo dinamarquês confirma essa preferência e acrescenta o que as próprias diretrizes dizem faltar, números sobre a dose do comprimido. No SUS, a lista nacional de remédios ainda só tem estrogênio em comprimido para a reposição. Para quem usa ou está pensando em começar a reposição hormonal, este estudo ajuda na conversa com o médico. A decisão continua no consultório, agora com números sobre a forma de usar e a dose.

Sobre a Longevidade News
Uma carta semanal sobre como viver mais e melhor com ciência e cuidado.
Publicada toda quinta-feira: um texto profundo, uma voz convidada, ciência aplicada à prática, notícias selecionadas e uma referência que vale saber. Acesse a edição completa no site principal.
Em outros lugares