Bom dia. Assim como na semana passada, a edição de hoje é diferente. Por aqui também descansamos e tentamos aproveitar esses momentos para pensar no que realmente vale a pena.

Hoje é 1º de janeiro. Dia de recomeço. Dia de começar um novo capítulo. O que você quer escrever daqui para frente? Não é sobre promessas vazias. Nem sobre listas perfeitas.

É sobre intenção.

RECOMEÇO

Gam ze ya’avor

Hoje é, literalmente, o primeiro dia do ano.

Um novo ano, cheio de possibilidades, desafios, encontros inesperados e situações que você não controla. Como sempre foi. Como sempre será. Um recomeço.

Um caminho que costuma passar por duas coisas nada fáceis:

A primeira é mirar naquilo que realmente importa.
Não no urgente. Nem naquilo que traz satisfação imediata.
No que, no fim das contas, dá sentido aos seus dias.

A segunda é aprender a lidar com aquilo que a vida devolve.

Viktor Frankl chamava isso de “resposta”.
Entre o estímulo e a resposta, existe um espaço.
E dentro desse espaço mora a maior liberdade do ser humano: escolher como reagir.

Sempre podemos escolher a postura com que atravessamos o que acontece.

É aqui que entra uma lenda.

Segundo a tradição, um rei hebreu pediu a um artesão que criasse um anel com uma inscrição especial.
Uma frase que servisse tanto nos momentos de desespero quanto nos momentos de vitória.

Depois de refletir, o artesão gravou no anel, em hebraico, a frase:
“Gam ze ya’avor. (גם זה יעבור)
“Isto também passará.”

A lenda conta que o rei recorreu ao anel em dois momentos opostos.

Na derrota, quando fugia de seus inimigos e parecia não haver saída, a frase o ajudou a recuperar a serenidade.
Na vitória, quando retornava ao palácio em meio a celebrações, a mesma frase o lembrava de não se perder no orgulho.

O sentido é simples e desconfortável ao mesmo tempo.
Nem a dor é permanente.
Nem a glória é.

Talvez esse seja um bom ponto de partida para o ano que começa.
Aceitar que a impermanência vale para os dois lados.

Isso ajuda a não se desesperar quando as coisas apertam.
E a não se iludir quando tudo parece dar certo.

Seguir em frente com mais lucidez.
Com menos impulso.
E com respostas um pouco melhores do que as do ano passado.

Já é um bom começo.

Desejo um ótimo ano para você com muita longevidade. Feliz 2026!

PALAVRA DA ESPECIALISTA

Inteligência Artificial, Futuro e o que permanece humano

As imagens recentemente publicadas pelo The Guardian projetando a vida em 2035 chamam atenção pela estética e pela provocação: médicos mediados por algoritmos, decisões jurídicas automatizadas, fazendas monitoradas por sensores, reuniões conduzidas por sistemas inteligentes.

Mas, mais do que prever o futuro, essas imagens nos convidam a refletir sobre o presente e sobre as escolhas que estamos fazendo agora.

Na saúde: dados não são sabedoria

Nos próximos anos, a inteligência artificial deixará de ser uma ferramenta pontual na medicina para se tornar infraestrutura invisível: triagem automatizada, análise contínua de sinais vitais por wearables, integração de exames, histórico clínico, dados genômicos e exposômicos.

O potencial é real:    

  1. diagnósticos mais precoces

  2. terapias mais personalizadas

  3. maior eficiência em sistemas sobrecarregados.

Mas o ponto central permanece: dados não substituem julgamento clínico, escuta qualificada e responsabilidade ética.

O médico do futuro não será aquele que compete com algoritmos, mas aquele que interpreta, contextualiza e humaniza a informação.

Na agricultura e na saúde ambiental

Talvez uma das maiores oportunidades esteja na relação entre inteligência artificial e ecossistemas. Leitura de solos, clima, biodiversidade e comportamento animal pode favorecer:    

  1. práticas regenerativas

  2. redução de agrotóxicos

  3. melhoria da saúde do solo

  4. bem-estar animal.

Aqui, a tecnologia pode se tornar uma aliada poderosa da saúde planetária desde que orientada por valores ecológicos e não apenas por métricas de produtividade.

O ponto central: quanto mais inteligentes os sistemas, mais humanos precisamos ser

O avanço da inteligência artificial não elimina o papel humano — ele o redefine.

Os próximos anos exigirão:

  1. profissionais capazes de dialogar criticamente com algoritmos

  2. líderes que compreendam limites éticos da automação

  3. educadores que formem pensamento crítico, não apenas operadores de ferramentas

  4. cidadãos conscientes do impacto social das tecnologias que utilizam.

🌍 Uma reflexão final

A inteligência artificial é um espelho ampliado da sociedade que a cria. Ela pode aprofundar desigualdades ou ajudar a corrigi-las. Pode mecanizar relações ou liberar tempo para o que realmente importa. Pode nos afastar da natureza — ou nos ajudar a reconstruir a inteligência ecológica que perdemos.

No fim, a pergunta mais relevante não é:

“O que a IA será capaz de fazer?”

Mas sim:

Que tipo de humanos queremos ser em um mundo cada vez mais inteligente?