
Bom dia. Voltamos com tudo.
Existe quase um acordo implícito de que o começo do ano é o momento de “mudar de vida”. Mas muitos estudos mostram que esse tipo de virada abrupta raramente funciona. A melhor estratégia que eu conheço é outra: aprender a focar no dia de hoje. No presente. Fazer o que precisa ser feito agora, de forma consistente, mesmo que pareça pequeno.
Não é sobre fazer tudo. É sobre fazer todo dia e repetir o que te move na direção certa.
🔎 RESUMO DA EDIÇÃO DE HOJE (TL;DR)
🌊 A onda da longevidade: Entenda por que o mercado global de longevidade e wellness está apenas no começo, o que grandes empresas já perceberam e por que ainda existe uma lacuna importante entre o desejo das pessoas de viver melhor e o que o sistema de saúde entrega hoje.
🗺️ O falso Graal da longevidade: O Dr. Luiz Delboni Marchese usa a metáfora de Indiana Jones para mostrar por que soluções mágicas raramente funcionam fora do laboratório e como dados, contexto individual e tecnologia podem servir como um mapa mais confiável para decisões melhores ao longo do tempo.
🛌 Sono, oxigênio e cérebro: Um estudo com mais de 11 milhões de pessoas sugere que a apneia do sono pode aumentar o risco de Parkinson, e que identificar e tratar cedo algo comum e tratável pode mudar de forma concreta a trajetória da saúde cerebral.
💡 Notícias da semana: A Samsung anuncia alertas precoces de sinais de demência no Galaxy Watch, testes de Alzheimer com gotas de sangue do dedo avançam como ferramenta de triagem, novas técnicas de ômicas espaciais revelam a organização de tumores e do sistema imune, o Vale do Silício flerta com peptídeos fora do sistema regulatório e a OpenAI lança o ChatGPT Health com foco em organização, privacidade e apoio ao cuidado médico.
📚 Vale saber: Greg McKeown lembra que “prioridade” era uma palavra singular por séculos. Talvez isso ajude a explicar por que, ao tentar transformar tudo em prioridade, acabamos perdendo justamente o que é essencial.
MERCADO
A onda da longevidade

Existem períodos da humanidade que transformam a forma como enxergamos o mundo. A internet no passado e, hoje, a inteligência artificial são exemplos claros. No mundo da saúde, há décadas se espera uma mudança no modelo. Muitos acreditavam que ela aconteceria logo após a pandemia. Não aconteceu. Mas o momento é agora.
A vontade das pessoas de viver mais e melhor, aliada a uma consciência maior de protagonismo pessoal e a uma mudança geracional, fez com que 2025 marcasse o início de uma transformação estrutural. Globalmente, em 2025, somente o segmento de wellness, que faz parte do mercado mais amplo da longevidade, atingiu US$ 6,8 trilhões, segundo o Global Wellness Institute. Esse número ajuda a entender a força econômica e cultural desse movimento.
É um olhar completamente diferente da saúde tradicional. Alguns exemplos ajudam a dar dimensão disso:
Cuidados pessoais e beleza: US$ 1,35 trilhão
Alimentação saudável, nutrição e perda de peso: US$ 1,15 trilhão
Atividade física: US$ 1,14 trilhão
Turismo wellness: US$ 893,9 bilhões
Isso sinaliza uma mudança importante. A tendência é que, no orçamento das famílias ao redor do mundo, o custo proporcional da saúde tradicional represente cada vez menos, enquanto investimentos em prevenção, bem-estar e qualidade de vida ganham espaço. O mercado dos GLP-1 ilustra bem esse movimento. Nos Estados Unidos, 12,4% dos adultos relatam utilizar esses medicamentos para perda de peso, impactando não apenas a indústria farmacêutica, mas também alimentação, atividade física e serviços de saúde.
A própria mudança geracional acelera esse processo. Dados da McKinsey mostram que a Geração Z e os Millennials investem desproporcionalmente mais em wellness e longevidade do que gerações anteriores. Para esses grupos, saúde deixou de ser algo episódico e passou a ser uma prática diária, personalizada e integrada ao estilo de vida.
As principais marcas globais já começaram a se posicionar:
Academias tradicionais estão se transformando em centros de cuidado integrado, unindo exercício físico, prevenção, comunidade, saúde mental, mindfulness e serviços complementares.
Empresas de alimentos tradicionais passaram a focar em alimentação saudável e ingredientes funcionais. Exemplos claros são a PepsiCo comprando a Poppi e a Danone adquirindo a Kate Farms. No Brasil, vemos um crescimento consistente de investimentos em snacks saudáveis e novos modelos de assinatura de alimentos e suplementos.
Marcas tradicionais de saúde, como operadoras e laboratórios de diagnóstico, começam a demonstrar interesse em se posicionar no campo da longevidade e a discutir como fazer a difícil transição de uma cultura reativa para uma saúde mais proativa.
E tem mais um motor acelerando tudo isso: influência. Redes sociais e criadores de conteúdo se tornaram um canal relevante de descoberta e decisão em longevidade, especialmente entre os mais jovens, que são mais expostos a conteúdo de saúde e mais propensos a serem influenciados a consumir nesse mercado.
E isso não aparece apenas em celebridades ou médicos. Aparece também em histórias como a da Judy Benjamin, que aos 80 anos atravessou os EUA a pé para dar visibilidade ao tema do declínio cognitivo e mostrar que a trajetória do envelhecimento pode ser diferente.
Esse movimento aponta diretamente para você, para mim, para nós. E ainda estamos longe do potencial máximo. Mesmo com todo esse crescimento, muitas pessoas sentem que suas necessidades reais de longevidade, cognição, saúde mental e saúde metabólica ainda não estão plenamente atendidas.
Uma onda grande está se formando. O mercado da longevidade tende a se tornar, senão o maior, um dos maiores mercados do mundo, com um objetivo central muito claro: ajudar as pessoas a viverem mais e melhor.
Isso só aumenta a necessidade de cautela. Por isso a Longevidade News existe. Para te ajudar. Muita coisa é e será vendida como milagrosa e não é. Não há como escapar do tripé da longevidade: exercício, nutrição de qualidade e sono, além de mudanças consistentes de estilo de vida. Ao mesmo tempo, cada vez mais você terá acesso a serviços mais personalizados, preditivos, preventivos e participativos.
2026 será um ano decisivo para a longevidade no Brasil e no mundo. Você está no centro dessa transformação. A hora de construir é agora. Obrigado por estar aqui.
Em frente.
PALAVRA DO ESPECIALISTA
O Santo Graal da Longevidade: Um mapa, não um cálice

Na cena final de Indiana Jones e a Última Cruzada, o herói se depara com uma sala cheia de cálices (a referência já lhe faz pensar na longevidade do autor do texto). O vilão, seduzido pelo brilho do ouro, escolhe o mais ornamentado e, ao beber dele, envelhece até virar pó. Ele “escolheu mal”. Indiana, por outro lado, com sua sabedoria pragmática, escolhe o cálice simples de um carpinteiro.
Essa cena é a metáfora perfeita para a nossa busca moderna pela longevidade. Somos bombardeados por “cálices de ouro”: pílulas brilhantes, moléculas com nomes complexos e promessas de reverter o relógio biológico. O marketing é sedutor, mas, como médico que já transitou por grandes estudos farmacêuticos, sei que a escolha errada, baseada apenas na aparência, pode ser inútil ou até prejudicial.
Mas a lição do filme vai além. Mesmo após encontrar o Graal verdadeiro, Indiana descobre a regra mais importante: seus poderes de imortalidade só funcionam dentro do templo. Cruzar o grande selo para o mundo exterior quebra o feitiço.
E aqui está a chave para entendermos a ciência da longevidade hoje. O templo é o laboratório. A “vida eterna” é o resultado promissor visto em um camundongo, que vive em um ambiente 100% controlado. Retirar essa descoberta “mágica” do templo e trazê-la para o mundo real, nossa vida caótica, cheia de estresse, genética e hábitos variados, muitas vezes faz com que o benefício desapareça. A ciência é válida, mas seu efeito não é universalmente transferível.
Então, qual é a esperança? A esperança está em perceber que, talvez, a busca não seja por um cálice mágico. A verdadeira lição de Indiana Jones não é o objeto, mas a jornada e a sabedoria adquirida. A solução não é um “tiro de canhão” na esperança de acertar o alvo, mas sim usar um mapa e uma lanterna para navegar no nosso próprio terreno.
Essa lanterna, hoje, são os dados. Dispositivos que usamos no pulso ou no dedo, os wearables, nos dão o mapa do nosso próprio corpo. Eles não oferecem uma promessa mágica; eles nos entregam a verdade sobre nossa biologia, em tempo real. Eles nos mostram o que acontece com nosso sono, nosso estresse e nossa recuperação quando tomamos certas decisões.
Essa abordagem transforma tudo. A conversa deixa de ser “qual cálice eu escolho?” e passa a ser “como eu leio o meu mapa?”.
Você não precisa de um suplemento genérico para estresse. Você pode identificar seus gatilhos por meio do seu HRV e testar intervenções reais, medindo o resultado.
Você não precisa de uma pílula para dormir. Você ajusta sua rotina e observa no gráfico qual estratégia lhe proporciona mais sono reparador.
Este é o futuro pragmático e otimista da longevidade. Um futuro onde nos tornamos os arqueólogos da nossa própria saúde, usando tecnologia não como um cálice mágico, mas como a ferramenta que ilumina as ruínas e nos ajuda a decifrar os segredos do nosso corpo.
O verdadeiro prêmio não é a imortalidade encontrada em um objeto. É a sabedoria de entender a si mesmo. É hora de parar de procurar pelo Graal e começar a desenhar nosso próprio mapa.
UM ALERTA
Apneia do sono, oxigênio e o risco de Parkinson

Se você ronca alto, acorda engasgado ou conhece alguém que parece “parar de respirar” durante a noite, vale prestar atenção nisso.
Um estudo publicado no final de 2025 no JAMA Neurology analisou dados de mais de 11 milhões de pessoas ao longo de vários anos. Entre elas, algo chamou atenção: cerca de 13 a 15% apresentavam apneia do sono sem diagnóstico.
A apneia acontece quando a via aérea colapsa durante o sono. Às vezes de forma parcial, gerando o ronco. Em outros momentos, o colapso é completo, como um canudo que se fecha. Nessas horas, o oxigênio no sangue cai. Isso pode acontecer dezenas ou até centenas de vezes por noite.
O estudo mostrou que pessoas com apneia do sono apresentaram um risco significativamente maior de desenvolver Doença de Parkinson ao longo do tempo. Em análises simplificadas, esse risco chegou a ser cerca de duas vezes maior em comparação a quem não tinha apneia. Esse tipo de dado, por si só, indica associação, não causa.
Mas o estudo foi além.
Os pesquisadores também analisaram o que aconteceu com pessoas que tiveram a apneia identificada e tratada precocemente com CPAP, o aparelho que mantém a via aérea aberta durante o sono. Nesse grupo, o risco de Parkinson foi reduzido em torno de 30%.
Isso muda o papo!
Quando se identifica um fator, intervém nele e observa mudança no desfecho, surge um forte indício de relação causal. Nesse caso, o que os dados sugerem é simples: tratar a apneia parece reduzir o risco.
Matt Walker, um dos maiores especialistas em sono do mundo, ajuda a entender por que isso faz sentido biologicamente. A queda repetida de oxigênio durante a noite é tóxica para as células cerebrais. Já é bem estabelecido que isso afeta memória e cognição. Agora, começam a aparecer sinais de que essas “agressões” também atingem regiões do cérebro ligadas ao controle motor, as mesmas envolvidas no Parkinson.
Esse ponto merece atenção.
A apneia do sono é comum. Um estudo brasileiro importante mostrou que a prevalência em adultos pode chegar a 33% (um terço!!!). A boa notícia é que se trata de uma condição tratável. A má é que, quando ignorada, pode estar influenciando a trajetória de doenças neurológicas graves décadas antes do diagnóstico.
Se você ronca, engasga à noite ou sente sonolência excessiva durante o dia, investigar não é detalhe. Pode ser uma decisão com impacto real na sua saúde cerebral de longo prazo.
NOTÍCIAS
O que mais está acontecendo?
💡 A Samsung anunciou no CES 2026 um recurso de alerta precoce para sinais de demência no Galaxy Watch, usando padrões de movimento, fala e uso para indicar possíveis mudanças cognitivas, sem diagnóstico; a iniciativa, focada em saúde preventiva com IA, começará em programa beta segundo a Samsung
💡 Ômicas espaciais permitem “ver” onde genes e proteínas aparecem dentro do tumor, revelando como células do câncer e do sistema imune se organizam. Uma revisão em Cancer Cell resume avanços e aplicações clínicas, mas destaca desafios de custo, escala e padronização.
💡 Um estudo publicado na Nature Medicine mostrou que biomarcadores do Alzheimer podem ser detectados a partir de gotas de sangue do dedo, usando amostras secas, com boa correlação com exames tradicionais; a abordagem pode facilitar triagem, pesquisa e acesso ao diagnóstico precoce, embora ainda não esteja pronta para uso clínico amplo.
💡 Peptídeos chineses viraram tendência de biohacking no Vale do Silício, com profissionais de tecnologia comprando e usando compostos fora do sistema regulatório, sem aprovação para uso humano. A reportagem expõe o fascínio por atalhos e os riscos reais de segurança e eficácia.
💡 A OpenAI lançou o ChatGPT Health, uma experiência dedicada à saúde que permite conectar prontuários e apps de bem-estar para entender exames, preparar consultas e acompanhar padrões ao longo do tempo, com proteções extras de privacidade e foco em apoiar, não substituir, o cuidado médico.
VALE SABER
“A palavra prioridade entrou na língua inglesa no século XIV. Era singular. Significava a primeira coisa, a principal. Ficou no singular durante quinhentos anos. Só no século XX inventamos o plural do termo e passamos a falar em prioridades. [...] Acreditamos que, ao chamar tudo de prioridade, tudo se tornará prioridade. O essencialista não faz isso, ele entende que não dá para ter tudo nem fazer tudo.”
— Fonte: Essencialismo - Greg McKeown
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