
Buenos. Nada é mais restaurador do que o descanso. Nenhum treino e nenhuma comida conseguem recarregar nossas baterias como uma boa noite de sono ou um dia de descanso da mente. Ainda assim, esse é provavelmente o pilar que mais negligenciamos. Quanto da nossa vida mudaria se aprendêssemos, de fato, a descansar?
🔎 RESUMO DA EDIÇÃO DE HOJE (TL;DR)
🧪 Multivitamínicos: quando a melhor evidência disponível é colocada lado a lado, o efeito geral decepciona. Ainda assim, surgem exceções específicas que ajudam a explicar por que esse mercado continua crescendo.
🩺 Doenças crônicas: a médica Dra. Vânia Assaly mostra por que obesidade, inflamação e intolerâncias não são acaso, mas sinais de um descompasso profundo entre nossa biologia e o ambiente moderno.
🥜 Amêndoas e lipídios: em 36 ensaios clínicos, um punhado diário empurra LDL e ApoB na direção certa, com efeitos pequenos, porém mais claros em quem já parte de risco maior.
🗞️ Notícias da semana: diretrizes dos EUA defendendo comida de verdade, lecanemabe aprovado no Brasil, IA acelerando a descoberta de fármacos, Strava avançando para IPO e a Time discutindo como a longevidade exige repensar a sociedade.
📚 Vale Saber: a médica Dra. Casey Means explica por que hábitos simples falham menos por falta de disciplina individual e mais porque incentivos sistêmicos empurram você para ultraprocessados, sedentarismo, pouco sono e estresse crônico.
MITOS
Tomar multivitamínicos faz sentido?

Multivitamínicos são um dos produtos de saúde mais vendidos do mundo. Estão nas farmácias, nos mercados, nos anúncios que prometem energia, imunidade e longevidade em um único comprimido. A ideia é tentadora: se algo pode estar faltando no corpo, por que não repor tudo de uma vez?
O problema é que o corpo raramente coopera com ideias simples demais.
Ao longo das últimas décadas, a ciência tentou entender se tomar multivitamínicos muda de forma relevante a trajetória da saúde. Uma revisão recente reuniu o que existe de mais sólido sobre o tema ao analisar 19 meta-análises, somando milhões de participantes e uma longa lista de desfechos clínicos. Não se trata de mais um estudo isolado, mas de uma visão ampla, construída a partir de tudo o que já foi medido com algum rigor.
Quando o olhar recai sobre mortalidade, o resultado é pouco animador para quem espera grandes efeitos. Em populações gerais, multivitamínicos não reduzem o risco de morte. O mesmo vale para a prevenção ampla de doenças cardiovasculares e câncer. Não aparecem efeitos consistentes, nem mesmo discretos o suficiente para justificar entusiasmo.
Isso costuma soar como uma sentença definitiva. Mas seria um erro parar aqui.
Quando o foco se desloca para situações específicas, o cenário ganha nuances. Em idosos, alguns estudos apontam pequenas melhorias em desempenho cognitivo e menor declínio em testes de memória. Em pessoas com dietas pobres, doenças crônicas ou maior carga de estresse fisiológico, surgem sinais de melhora em fadiga e bem-estar geral.
O que se revela, ao juntar essas peças, é algo menos elegante do que gostaríamos, porém mais próximo da realidade: multivitamínicos não funcionam como solução genérica, mas podem ter utilidade quando existe um problema concreto a ser compensado.
Esse ponto ajuda a entender o tamanho do mercado. A indústria global de multivitamínicos movimenta dezenas de bilhões de dólares por ano, sustentada sobretudo por adultos saudáveis que tentam “não errar”. O comprimido vira uma espécie de seguro contra falhas da rotina. Só que o corpo não responde a intenções. Ele responde a contexto.
Isso não torna a suplementação inútil. Torna inútil suplementar sem critério.
O avanço real não está em decidir se alguém “deve ou não” tomar multivitamínico, mas em identificar deficiências reais. É sair da prateleira genérica e caminhar em direção a uma estratégia personalizada.
O conjunto de evidências aponta para uma conclusão menos sedutora do que a promessa da embalagem, mas muito mais útil no longo prazo: multivitamínicos não são atalhos para longevidade. Quando ajudam, ajudam pouco e em circunstâncias bem definidas. O que move o ponteiro de verdade continua sendo o básico bem feito.
PALAVRA DA ESPECIALISTA
Epidemia de doenças crônicas e o descompasso evolutivo

Nas últimas décadas, testemunhamos o surgimento precoce de doenças crônicas (como diabetes, hipertensão arterial e câncer) em uma escala nunca antes vista. Da obesidade à síndrome metabólica, observamos o diagnóstico de esteatose hepática até mesmo em crianças e adolescentes, um cenário que há pouco tempo seria considerado excepcional.
Sintomas gastrointestinais antes raros tornaram-se comuns nos consultórios. Passamos a perceber a intolerância ao glúten e, progressivamente, à lactose, à caseína, ao ovo. Reconhecer o nome dos ingredientes nos rótulos dos alimentos que consumimos e oferecemos aos nossos filhos já não é tarefa simples; muitos produtos parecem mais fórmulas químicas do que alimento.
Novos diagnósticos passaram a integrar o vocabulário clínico com naturalidade preocupante: intolerância à histamina, síndrome de ativação mastocitária, disbiose, permeabilidade intestinal aumentada. Nunca falamos tanto sobre saúde, mas nunca estivemos tão doentes.
O aumento de doenças autoimunes, enxaquecas, fadiga persistente, alterações de pele e quadros inflamatórios sistêmicos leva muitos pacientes a transitarem entre redes sociais e consultórios em busca de um nome que explique a dor, como se o diagnóstico fosse destino e não o início do entendimento.
Nesse intervalo entre excesso de informação e falta de integração, surgem distorções alimentares e comportamentais. Ortorexia, anorexia, vigorexia. Sabemos muito, mas absorvemos pouco. Buscamos perfeição antes de buscarmos saúde. Acumulamos dados, mas perdemos vitalidade.
Esse paradoxo nos conduz ao ponto inevitável: o que está acontecendo com nossa biologia?
Da coerência ancestral à vida moderna desconectada
Durante milhares de anos, seres humanos viveram em sincronia com o ambiente. Acordávamos com o sol, dormíamos com as estrelas, nos movíamos para colher, correr, sobreviver. A alimentação era viva, vegetal, fibrosa. Tocávamos a terra, convivíamos com microrganismos, respirávamos ar puro. Jejuar era ritmo, não estratégia.
Hoje vivemos uma vida ultraprocessada. O contato com o ambiente foi substituído por hipersanitização. Poluentes químicos presentes dentro de casa atravessam barreiras biológicas e passamos horas sentados diante de telas que ocupam o lugar do horizonte.
Crianças passam menos tempo ao ar livre do que pessoas privadas de liberdade. A Síndrome do Déficit de Natureza (que não é um diagnóstico, mas um termo construído para descrever tal problema) ajuda a explicar a escalada de ansiedade, irritabilidade, distúrbios emocionais e comportamentais, tantas vezes medicados antes de compreendidos.
Não é apenas uma questão psicológica.
Nossa biologia não reconhece mais o ambiente no qual foi moldada para existir.
Do diagnóstico complexo à medicalização, perdemos a rota da saúde.
A medicina avançou em nomenclaturas, biomarcadores e imagens de alta resolução, mas muitas vezes se afastou do fundamento mais essencial: compreender o organismo como sistema vivo, adaptativo e integrado ao ambiente. Tornamo-nos especialistas em identificar o que está errado, mas nem sempre em restaurar aquilo que sustenta a vida.
CIÊNCIA NA PRÁTICA
Um pouco de amêndoas pode ajudar o colesterol?

Pequenas mudanças costumam ser menos empolgantes do que grandes promessas, mas é nelas que a ciência nutricional mais confiável costuma morar. Um bom exemplo disso vem de uma meta-análise recente que reuniu 36 ensaios clínicos randomizados, com cerca de 2.500 participantes, para avaliar o impacto do consumo regular de amêndoas sobre o perfil lipídico.
O que se observou não foi um efeito grande, mas foi consistente. Em média, o consumo diário de amêndoas reduziu LDL-colesterol em cerca de 5 mg/dL e Apolipoproteína B em 4–5 mg/dL, além de pequenas melhorias em colesterol total, colesterol não-HDL e nas razões colesterol total/HDL e LDL/HDL. Os efeitos foram mais evidentes em pessoas que já começavam com LDL mais alto (≥130 mg/dL), grupo no qual a queda de LDL chegou perto de 9 mg/dL.
Esses números parecem modestos. E são. Mas vale lembrar que tanto o LDL quanto a ApoB são fatores causais da aterosclerose, que está no grupo de doenças que mais matam no mundo. A ApoB, em especial, reflete o número total de partículas aterogênicas circulantes. Reduzi-la significa diminuir a chance de essas partículas atravessarem a parede arterial e iniciarem a formação de placas. Mesmo reduções pequenas, quando sustentadas ao longo do tempo, estão associadas a menor risco cardiovascular em análises populacionais.
Por que amêndoas fariam isso? A explicação mais provável envolve uma combinação de fatores: fibras e fitoesteróis que reduzem a absorção intestinal de colesterol, gorduras insaturadas que modulam a produção hepática e a remoção de LDL, além de efeitos indiretos via controle de apetite e composição corporal.
Nada disso transforma amêndoas em tratamento. Elas não substituem medicação quando ela é indicada. Mas funcionam bem como ajuste alimentar. Um punhado por dia, especialmente no lugar de comida ultraprocessada, não resolve tudo. Mas empurra a sua saúde lipídica na direção certa. E, em ciência da longevidade, isso já é bastante coisa.
NOTÍCIAS
O que mais está acontecendo?
💡 Discussão intensa. As novas Diretrizes Alimentares dos EUA (2025–2030) passaram a recomendar mais comida de verdade, maior ingestão de proteínas e redução de alimentos altamente processados e açúcar adicionado, reacendendo o debate científico e político sobre gorduras, ultraprocessados e o papel da nutrição nas doenças crônicas.
💡 A Anvisa aprovou o lecanemabe, primeiro anticorpo anti-beta-amiloide autorizado no Brasil para Alzheimer em estágio inicial, após estudos mostrarem retardo do declínio cognitivo em pacientes selecionados, reacendendo o debate sobre benefícios clínicos, riscos e acesso a terapias modificadoras da doença.
💡 A Boltz lançou a Boltz Lab, plataforma de IA para design de proteínas e pequenas moléculas, reforçando a agenda de open science, e anunciou rodada seed de US$ 28 milhões liderada pelo a16z, além de parceria estratégica com a Pfizer para P&D biomédico.
💡 A Strava entrou com pedido confidencial de IPO, segundo a Reuters, e avalia estrear na bolsa no primeiro semestre de 2026, após ter sido avaliada em US$ 2,2 bilhões em rodada liderada pela Sequoia, em meio à reabertura gradual do mercado de capitais para empresas de tecnologia e fitness.
💡 A Time argumenta que o aumento da longevidade está redesenhando trabalho, educação e moradia, tornando obsoleto o modelo tradicional de vida em três etapas e exigindo sociedades que integrem aprendizado contínuo, carreiras flexíveis e convivência entre gerações para envelhecer melhor.
VALE SABER
“Se hábitos simples (como comer comida de verdade, dormir o suficiente, se movimentar regularmente e manejar o estresse) são tão transformadores, por que tão poucas pessoas os praticam de forma consistente? Se essas ações simples tornassem as pessoas tão felizes e saudáveis, por que não estaríamos todos fazendo isso? Acho que essa pergunta paira no nosso subconsciente coletivo e alimenta crenças insidiosas dentro do sistema médico, como “pacientes são preguiçosos”, “intervenções de estilo de vida não funcionam” e “as pessoas querem o caminho mais fácil”. Ou a ideia de que soluções mais complexas e “inovadoras” precisam ser a resposta. Essas críticas aos pacientes convenientemente ignoram o fato de que trilhões de dólares em incentivos nos empurram para comer alimentos ultraprocessados, sermos sedentários, dormir menos e viver em medo crônico.”
— Fonte: Dra. Casey Means
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