
Bom dia. A ciência da longevidade está avançando em ritmo acelerado e a inteligência artificial virou uma das principais forças por trás disso. Ótimo, certo? Em parte. Um estudo recente mostrou que pesquisadores que usam IA publicam mais, são mais citados e chegam mais rápido a posições de liderança. O custo aparece depois: menos diversidade de ideias, mais concentração nos mesmos problemas e uma ciência menos conectada. Uma ciência pasteurizada. A curiosidade genuína vai se destacar nesse novo mundo.
🔎 RESUMO DA EDIÇÃO DE HOJE (TL;DR)
🧠 Desejo por comida: a vontade intensa por certos alimentos não nasce da falta de controle. Ela surge quando a comida envia sinais errados ao corpo, confundindo saciedade, energia e levando a ciclos repetidos de fome horas depois.
🔥 Inflammaging: Lázaro Medeiros explica como a inflamação crônica de baixo grau envelhece o corpo antes do tempo, corroendo reparo, metabolismo e performance muito antes de qualquer diagnóstico aparecer.
🥚 Ovo e pressão arterial: em adultos com colesterol elevado, dois ovos por dia dentro da dieta DASH não pioraram LDL, pressão ou inflamação. O que o estudo mostra é por que o contexto da dieta pesa mais do que o alimento isolado.
🗞️ Notícias da semana: uma fusão bilionária no fitness, agentes de IA assumindo tarefas com pacientes, um biossensor não invasivo focado em glicose, um estudo japonês propondo uma nova forma de medir anos vividos com boa saúde e a chegada da Neko Health aos EUA mostram para onde a saúde preventiva está caminhando.
📚 Vale Saber: James Clear lembra que hábitos constroem identidade, mas o apego a essa identidade pode virar um freio, impedindo enxergar fragilidades e seguir evoluindo.
SEU METABOLISMO
O que está por trás do desejo por certas comidas?

Recentemente tivemos uma atualização nas diretrizes alimentares dos Estados Unidos, o que reacendeu um debate antigo sobre dietas. Low carb, low fat, mediterrânea, plant-based. A disputa nunca acaba. Mas trouxe novamente pro foco o tema dos alimentos ultraprocessados.
Não é novidade que eles deveriam ser praticamente banidos do nosso dia a dia. Não apenas pelos ingredientes de nomes indecifráveis, mas porque muitos deles são formulados para induzir repetição. Isso mesmo, te viciar. Comer e querer comer de novo. Mas de onde isso vem?
No livro Energia sem limites, a médica Casey Means explica. Desejos intensos por comida não são falta de disciplina nem traço de personalidade. São sinais fisiológicos. Feedback vindo das células quando a alimentação passa mensagens contraditórias ao organismo.
A vontade de comer é regulada por uma rede complexa que envolve hormônios, cérebro, intestino e microbiota. Mas o que interessa para o tema desse texto é o seguinte: quando o corpo insiste em buscar certos alimentos, é porque suas necessidades reais não estão sendo atendidas. Diante disso, ele usa os mecanismos disponíveis para aumentar a chance de ingestão. Fome, busca por recompensa, preferência por alimentos densos em energia.
Os ultraprocessados entram exatamente aí. Eles estimulam os circuitos de recompensa, mas falham em gerar saciedade adequada. O corpo recebe prazer, mas não recebe a informação de que já teve o suficiente. O resultado é comer mais sem perceber.
O impacto do pico glicêmico
Um ponto central desse estímulo é o papel do pico glicêmico. Alimentos que elevam rapidamente a glicose no sangue provocam uma resposta intensa de insulina. Em muitos casos, essa resposta leva a uma queda subsequente da glicose para níveis abaixo do basal, algumas horas após a refeição, como um pêndulo empurrado forte demais, que não para no centro e acaba oscilando para o outro lado. Esse momento de queda é justamente quando surgem desejos fortes por carboidratos ou açúcar.
Muitas pessoas interpretam isso como “hipoglicemia”. Na prática, o problema não é uma glicose cronicamente baixa, mas uma oscilação exagerada causada pela própria escolha alimentar. Primeiro o pico. Depois a queda. E, com ela, fome, irritação e vontade específica por alimentos rápidos. O corpo não está falhando. Ele está tentando se estabilizar.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que a comida ultraprocessada tende a gerar ciclos de consumo. Ela cria instabilidade metabólica e, em seguida, oferece a falsa solução para o problema que ajudou a criar.
Essa lógica foi demonstrada de forma elegante em um estudo conduzido pelo Dr. Kevin Hall, publicado em 2019 na Cell. Já comentamos esse trabalho em outra edição da Longevidade News, mas vale repetir pela relevância. Em um ambiente controlado, participantes puderam comer à vontade dietas ultraprocessadas ou compostas por alimentos minimamente processados, com calorias e macronutrientes equivalentes.
Mesmo assim, ao consumir ultraprocessados, as pessoas comeram cerca de 500 calorias a mais por dia e ganharam peso. Quando passaram para comida de verdade, comeram menos, perderam peso e apresentaram maior sinalização de saciedade. Os mesmos indivíduos. Mensagens alimentares completamente diferentes.
Isso mostra que o ponto central não é força de vontade. É comunicação. Quando a comida envia sinais claros, o corpo responde com equilíbrio. Quando envia sinais confusos, o desejo aumenta.
Entender isso muda a conversa e faz a gente pensar diferente. O desejo por certos alimentos não define quem a gente é. Ele reflete, muitas vezes, o ambiente alimentar ao qual estamos expostos. Ajustar esse ambiente costuma ser mais eficaz do que travar uma disputa constante contra o próprio corpo.
PALAVRA DO ESPECIALISTA
Inflammaging: a chama silenciosa que envelhece o corpo por dentro

Se há uma palavra que redefine a ciência da longevidade, é inflammaging. Este termo técnico descreve a junção da inflamação com o envelhecimento, um processo biológico que, silenciosamente, acelera a deterioração do corpo ao longo da vida. Como não apresenta sintomas típicos (febre, dor), ele age de forma oculta, como uma “chama silenciosa”. Com isso, a longevidade passa a ser medida não pelas rugas ou cabelos brancos, mas pelo nível de inflamação interna.
Envelhecer é inflamar
Corriqueiramente, costumamos pensar em inflamação como algo pontual: sofreu um corte, inflamou. Pegou uma gripe, inflamou. Mas a ciência da longevidade mostra que, com o passar dos anos, o corpo começa a inflamar sem motivo aparente. Pequenos danos se acumulam: estresse oxidativo, toxinas, alimentação inadequada, sono ruim, picos glicêmicos, acúmulo de gordura visceral. Tudo isso ativa constantemente as vias inflamatórias do sistema imunológico.
E, quando a inflamação deixa de ser uma resposta de emergência e vira um estilo de vida celular, nasce o inflammaging. É como se o corpo estivesse sempre resolvendo um incêndio que nunca acaba e, nesse esforço contínuo, ele vai se desgastando.
O tripé do inflammaging: onde tudo começa
Com o tempo, o sistema imunológico perde precisão. Ele passa a produzir muitas citocinas inflamatórias de forma que os nossos sistemas de reparo não conseguem neutralizar. É como um bombeiro que chega tarde, com pouca água e fazendo mais fumaça que solução.
Com isso, o metabolismo começa a se desregular: resistência à insulina, picos de glicemia, acúmulo de gordura visceral, mitocôndrias disfuncionais. Todos esses fenômenos aumentam a inflamação sistêmica. O corpo começa a reagir a tudo como se fosse uma pequena ameaça.
Com todos esses eventos, o tecido adiposo passa a ampliar a inflamação. E vale lembrar que gordura não é apenas depósito; é um tecido altamente funcional. Quando aumenta demais, começa a convocar macrófagos, liberar citocinas inflamatórias e produzir células senescentes. Como consequência, o inflammaging se torna o pano de fundo de quase todas as doenças crônicas que vemos na maturidade.
O gatilho invisível: o corpo inflama muito antes de você perceber
O problema é que o inflammaging não dói. E toda essa inflamação quase silenciosa começa a provocar alterações que se tornam observáveis, como: cansaço desproporcional, queda na performance física, ganho de peso facilitado, alterações na digestão (sabe aquela carne que começa a pesar no estômago?), sono fragmentado ou leve demais e, na ponta do iceberg, perda no viço da pele e queda na massa muscular mesmo treinando regularmente.
Ninguém pensa “estou inflamando”. Mas a verdade é que, quando esses sinais aparecem, a inflamação já está antiga.
O que realmente funciona para reduzir essa chama
O inflammaging responde à soma de escolhas que, repetidamente, sustentam o corpo a longo prazo. Aqui entram as intervenções mais validadas pela literatura:
Alta densidade nutricional, ou seja, variar os vegetais e as cores, baixo consumo de alimentos ultraprocessados, alimentos de baixa carga glicêmica e boas fontes de fibras. Aqui não cabe a dieta da moda, mas uma estratégia bem delineada.
Movimento diário. E isso quer dizer: treino de força, caminhada e variações de intensidade, que modulam a inflamação como um remédio natural.
Sono profundo é prioridade, ou seja, nunca menos que seis horas. Essa é uma estratégia anti-inflamatória com impacto sistêmico no metabolismo.
Manejo do estresse. E falo em manejo porque não devemos retirá-lo da equação, mas dosá-lo. Cortisol cronicamente elevado mantém o inflamassoma ativado. Mindfulness, pausas para respirar, rotinas organizadas e vínculos importam muito.
O intestino também é um ponto central no inflammaging. As bactérias, fungos e vírus que carregamos podem equilibrar ou acentuar a inflamação. Essa vertente sofre interferência de tudo que foi citado anteriormente. Alimentação, exercício, sono e manejo do estresse são pontos cruciais. Mas, se você quer intensificar isso, comece consumindo a quantidade adequada de fibras (20 a 30 g por dia) e bebendo água de forma regular (35 mL por quilo de peso corporal é um bom começo).
E, por fim, o contato social. Nossas relações sociais também ajudam a regular o inflammaging, tendo em vista que a solidão pode promover alterações sistêmicas tão complexas quanto a má alimentação. Nossa longevidade também precisa ser um projeto coletivo.
No fim das contas, o metabolismo não envelhece porque o tempo passa. Ele envelhece porque perde a capacidade de resolver inflamação. Se queremos viver mais (e melhor), o foco não é apenas comer bem, treinar e suplementar. É restaurar a inteligência biológica que permite ao corpo decidir o que precisa inflamar e o que precisa reduzir a inflamação.
CIÊNCIA NA PRÁTICA
Ovo atrapalha quem está tentando controlar a pressão?

Quando o assunto é saúde cardiovascular, poucos alimentos geram tanta confusão quanto o ovo. Ele aparece com frequência em listas de “alimentos problemáticos” por causa do colesterol da gema, mas ao mesmo tempo é visto como um alimento nutritivo, acessível e rico em proteínas. Então a pergunta é: em pessoas que já precisam cuidar do coração, o ovo atrapalha?
Um estudo recente ajudou. Pesquisadores avaliaram o efeito de incluir dois ovos por dia dentro da dieta DASH, um padrão alimentar clássico para redução da pressão arterial, em adultos com colesterol elevado. O desenho do estudo foi bem interessante: estudo randomizado, controlado, cruzado, com acompanhamento próximo por nutricionista e controle calórico. Cada participante seguiu, em momentos diferentes, a dieta DASH com ovos e a mesma dieta sem ovos.
Qual o resultado? A adição de ovos não piorou nenhum marcador cardiometabólico relevante. Não houve diferença em LDL-colesterol, pressão arterial, inflamação medida por PCR, sensibilidade à insulina ou peso corporal. Em outras palavras, dentro de um contexto alimentar saudável, os ovos não “estragaram” o que a dieta DASH estava fazendo.
Isso não é tão surpreendente quanto parece. Embora o ovo seja rico em colesterol, o impacto do colesterol da dieta sobre o LDL sanguíneo varia bastante entre as pessoas e costuma ser pequeno quando a alimentação tem baixo teor de gordura saturada e boa presença de gorduras insaturadas. Nesse estudo, as duas dietas tinham um perfil de gorduras semelhante e relativamente favorável, o que ajuda a explicar a ausência de diferenças nos lipídios.
Outro ponto interessante é que a inclusão dos ovos aumentou a ingestão de colina, um nutriente importante para o metabolismo hepático e a saúde neurológica, sem alterar de forma relevante a ingestão de proteínas, vitaminas e minerais. Por outro lado, a dieta com ovos teve uma ingestão ligeiramente menor de fibras, o que não é desejável, já que fibras ajudam no controle do colesterol e da glicemia. Isso mostra que incluir ovos não pode vir às custas de retirar vegetais, grãos integrais ou leguminosas.
Estudos semelhantes em pessoas com diabetes tipo 2 ou síndrome metabólica mostram desfechos parecidos: adicionar ovos a uma dieta de boa qualidade não parece trazer prejuízos claros, mas também não gera benefícios evidentes para os principais marcadores cardiometabólicos.
O recado prático é: Ovos não são vilões em pacientes com marcadores cardiometabólicos quando fazem parte de um padrão alimentar de qualidade, como a dieta DASH. Ao mesmo tempo, eles não são um alimento “protetor” por si só. Para quem pensa em longevidade e saúde cardiovascular, o que mais importa não é um alimento isolado, mas o conjunto da dieta.
NOTÍCIAS
O que mais está acontecendo?
💡 A dona do ClassPass, Playlist, anunciou a fusão com a EGYM, criando uma empresa avaliada em US$ 7,5 bilhões, com aporte de US$ 785 milhões liderado pela Affinity Partners, de Jared Kushner. A união reforça o uso de IA e a expansão global no mercado de fitness e wellness.
💡 A Hippocratic AI levantou US$ 141 milhões em rodada Série B, chegando a valuation de US$ 1,64 bilhão, para expandir “agentes” de IA voltados a tarefas não diagnósticas com pacientes, como preparo de consultas, monitoramento remoto e orientações pré-operatórias. A aposta é aliviar a escassez de profissionais de saúde.
💡 Pesquisadores japoneses propõem calcular o valor de um ano vivido com boa saúde levando em conta a idade da pessoa e como a qualidade de vida muda ao longo do tempo, em vez de tratar todos os anos saudáveis como iguais. A ideia é orientar melhor decisões de investimento em saúde em populações envelhecidas.
💡 A MedWatch levantou US$ 15 milhões (Série A) para desenvolver um biossensor não invasivo com insights ligados à glicose (CGM) e uma plataforma de “wellness metabólico”. No mesmo movimento, adquiriu a Sensable Health para integrar um app de wellness ao produto.
💡 A Neko Health vai abrir sua primeira unidade nos EUA, em Nova York, em abril de 2026. Fundada por Daniel Ek (Spotify) e Hjalmar Nilsonne, a empresa leva ao país seu check-up preventivo de 60 minutos, sem radiação, com sensores, exames de sangue e consulta médica no mesmo dia. A empresa já soma mais de 300 mil pessoas na fila global e opera seis unidades na Europa.
VALE SABER
“No começo, repetir um hábito é essencial para acumular evidências da identidade que você deseja construir. À medida que você se apega a essa nova identidade, porém, essas mesmas crenças podem passar a te segurar no próximo nível de crescimento. Quando jogam contra você, sua identidade cria uma espécie de “orgulho” que incentiva a negar seus pontos fracos e impede um crescimento real. Esse é um dos maiores custos de construir hábitos.”
— Fonte: James Clear
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