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Quinta · 20 de agosto de 2026 · Edição #89
Bom dia. O laboratório do Ministério da Agricultura analisou azeites vendidos no Brasil como extravirgem, por determinação da Justiça Federal numa ação do Ministério Público, e o resultado veio a público neste mês. Seis marcas bem conhecidas foram classificadas como azeite virgem, uma categoria abaixo do que diz o rótulo e gerou grande questionamento online. Outras duas receberam classificação preliminar de lampante, que nem deveria ser vendido para consumo sem passar por refino. Nada disso é definitivo, o próprio ministério afirma que os testes ainda não são conclusivos, e as empresas podem pedir contraprova.
  Resumo da edição
⚗️ Como saber se um tratamento de longevidade funciona: A Nature Medicine publicou um editorial, que é a posição da revista, cobrando do próprio campo menos alarde e mais evidência clínica. Dois casos sustentam a cobrança. A premissa que vende NAD+ não apareceu quando mediram sete grupos de pessoas, e um comitê da FDA recomendou liberar a manipulação de seis peptídeos contra o pedido de cautela dos próprios técnicos da agência. O que falta são formas concretas de avaliar se um tratamento funciona de fato, e esse é um dos grandes desafios do campo.
👟 A capa do cadarço humano: O Dr. Ricardo di Lazzaro Filho explica os telômeros pela imagem da ponteira de plástico que impede o cadarço de se desfiar. Eles encurtam a cada divisão da célula, e quando ficam curtos demais a célula para de se dividir e passa a soltar substâncias inflamatórias. O paradoxo é que telômeros que nunca encurtam abrem a porta do câncer. Ele fez o exame que mede o próprio comprimento telomérico, lançado agora no Brasil, e percorre da dieta à terapia genética o que já dá para fazer com essa informação.
🦩 Por que o equilíbrio prevê mais do que a força: Em Taiwan, 13.423 pessoas de 65 anos ou mais fizeram sete testes físicos simples e foram acompanhadas por sete anos. Quem foi melhor nos testes teve 61% menos risco de morrer no período. Teste a teste, os dois que mais separaram quem viveu de quem morreu foram ficar de pé num pé só e levantar da cadeira, contornar um cone e voltar. Equilíbrio e agilidade formam o grupo de exercício que raramente entra no treino de propósito.
📰 Notícias da semana: A Anvisa registrou a primeira semaglutida genérica brasileira, num mercado de GLP-1 que mais que dobrou em um ano; o exame de sangue que promete achar muitos cânceres de uma vez vai a comitê da FDA em setembro, depois de cinco anos sendo vendido sem aprovação; o Google anunciou um recurso que estima resistência à insulina pelo pulso; a mortalidade por câncer antes dos 50 caiu 56% na Noruega, com o colorretal parado; e a FDA quer acabar com a regra que deixa a indústria decidir sozinha se um ingrediente alimentar é seguro.
📚 Vale Saber: Uma passagem de Drauzio Varella, em Por um Fio, sobre o que a consciência do próprio fim transforma numa pessoa, e por que nenhum outro acontecimento se compara a ela.
  EVIDÊNCIA
Como saber se um tratamento de longevidade funciona

Na terça-feira, a Nature Medicine publicou um editorial sobre o mercado de intervenções antienvelhecimento. A tese cabe numa frase. Falta evidência clínica e sobra alarde. É a posição da revista, não um estudo novo, e ocupa uma página.

O raciocínio começa pelo que o campo tem de sólido. Existe um conjunto de processos que aparecem em várias doenças da idade ao mesmo tempo. A inflamação crônica de baixo grau. As células senescentes, que param de se dividir, não morrem, e ficam no tecido emitindo sinais que irritam a vizinhança. A deriva epigenética, o acúmulo de marcas químicas no DNA que muda quais genes ficam ligados e quais ficam desligados. E a autofagia insuficiente, que é a célula deixando de reciclar as próprias peças gastas. A aposta razoável é que mexer nesses processos mexa em várias doenças de uma vez. Alvo não falta. O que falta é dado mostrando benefício em gente.

O editorial escolhe dois exemplos, e o primeiro é o NAD+. A molécula é vendida em cápsula e em injeção com base na ideia de que ela cai com a idade e precisa ser reposta. Em junho, um grupo do Amsterdam UMC mediu NAD+ em sete grupos de pessoas, com espectrometria de massa validada, e encontrou o nível no sangue estável ao longo da vida, subindo apenas em quem tomava nicotinamida ribosídeo. A queda que justifica a categoria não apareceu. Vale a precisão, porque o estudo mediu sangue e é sobre sangue que ele fala. Os estudos de suplementação, acrescenta o editorial, ainda não mostraram efeito sobre doença.

O segundo exemplo são os peptídeos injetáveis que circulam nas redes, como o TB-500, parente de uma proteína do próprio corpo com ação anti-inflamatória. Não são aprovados pela agência americana e são vendidos com rótulo de uso em pesquisa, com origem e controle de qualidade incertos. Em 23 e 24 de julho, um comitê consultivo da FDA avaliou liberar a manipulação de sete deles em farmácia, o que abriria caminho para a venda por telessaúde. A equipe técnica da agência havia pedido cautela e os cientistas da casa apontaram riscos. O comitê recomendou seis dos sete. O editorial registra que seis membros desse painel vendem peptídeos, que um é farmacêutico de manipulação, e que quem os nomeou foi o gabinete de Robert F. Kennedy Jr, o secretário de Saúde que já declarou entusiasmo pela categoria. A recomendação não obriga a agência a nada, e a decisão final ainda não saiu.

Testar isso direito esbarra num problema de relógio. Dá para rodar um estudo de um ou dois anos e ver o que aconteceu com uma doença. Não dá para rodar trinta anos e ver quanto tempo a pessoa viveu bem. Por isso o editorial pede marcadores substitutos, medidas que digam em prazo curto se o envelhecimento biológico mudou de ritmo. Os candidatos são dois, os relógios do envelhecimento, que a gente tratou na edição 79, e testes funcionais simples, de força e de capacidade física.

E aqui o editorial faz a crítica que dá credibilidade a ele. Envelhecer rápido já aparece associado a mais risco de doença, mas os estudos que testam se esses marcadores respondem a uma intervenção ainda estão no começo. A medida proposta ainda não passou pelo teste de se mover quando deveria se mover.

Nada disso quer dizer ficar parado esperando. Longevidade é prática personalizada, e existe um estágio, depois que o básico está feito e medido, o sono, o treino, a comida, os exames em dia, em que faz sentido considerar coisas de evidência mais fraca, com a equipe de saúde junto, pesando risco contra retorno para aquela pessoa. É o que a literatura chama de n de um, o estudo com um participante só, que é você. O que separa uma aposta de uma crença são duas coisas. Saber que é aposta. E ter definido, antes de começar, o que vai medir para descobrir se ela está pagando.

Fica uma pergunta de bolso para a próxima promessa que aparecer, e ela serve para cápsula, injeção e protocolo de clínica. Isso foi testado em quantas pessoas, por quanto tempo, e o que mudou nelas que dá para medir? Quando a resposta vem em camundongo, em mecanismo bonito ou em depoimento de quem vende, a conversa ainda não começou. A própria Nature Medicine pediu essa pergunta por escrito. Enquanto ela ficar sem resposta, o que está à venda é promessa.

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  A voz do especialista
A capa do cadarço humano: como os telômeros ditam nosso relógio biológico, e se é possível voltar os ponteiros
RL
 
Texto escrito por
Médico e farmacêutico pela USP, doutor em genética, cofundador da Genera.

Imagine a pontinha de plástico que protege a extremidade de um cadarço de tênis. Sem ela, o cadarço se desfaz rapidamente. No mundo microscópico das nossas células, existe algo equivalente: os telômeros. Essas estruturas de DNA, formadas por repetições da sequência de nucleotídeos TTAGGG, protegem as pontas dos nossos cromossomos a cada divisão celular. O problema é que, a cada replicação, essa "capa protetora" fica um pouco menor. Quando ela atinge um tamanho criticamente curto, a célula simplesmente perde a capacidade de se dividir e entra em senescência, um estado de "aposentadoria biológica" em que ela para de funcionar de maneira fisiológica e passa a secretar substâncias inflamatórias.

A descoberta dessa engrenagem fundamental rendeu o Prêmio Nobel de Medicina de 2009 aos cientistas Elizabeth Blackburn, Carol Greider e Jack Szostak, pelo mapeamento da telomerase, a enzima capaz de reconstruir essas pontas. Hoje, o encurtamento dos telômeros é classificado como um dos principais Hallmarks of Aging (as marcas fundamentais do envelhecimento). Quando esse desgaste acontece rápido demais por falhas genéticas, pode-se desenvolver telomeropatias, como a fibrose pulmonar idiopática.

O paradoxo da imortalidade celular

A biologia, no entanto, adora um bom paradoxo. Se telômeros curtos demais causam envelhecimento e falência dos tecidos, telômeros que nunca encurtam podem ser o passaporte para o câncer.

Para se dividir indefinidamente e formar tumores, as células cancerígenas precisam encontrar um jeito de driblar o limite natural de divisões humanas (o chamado Limite de Hayflick). Em casos de melanoma e diversos cânceres hematológicos, mutações no gene TERT reativam a telomerase de forma descontrolada. As células tumorais ganham uma espécie de "juventude eterna" e se tornam imortais. Por isso, a gerociência busca o equilíbrio perfeito: proteger o telômero para evitar o envelhecimento precoce, sem abrir a porta para a proliferação tumoral.

Do exame de sangue à terapia genética: é possível adiar esse relógio?

Na semana passada, o Alta Diagnósticos lançou no Brasil o primeiro teste para medir os comprimentos teloméricos de uma pessoa. Coletei meu exame na última segunda-feira e estou ansioso pelos resultados.

Mede-se a extensão dos telômeros nos leucócitos, e o exame é considerado um dos principais marcadores de idade biológica molecular, aquele número que diz quão velho seu corpo realmente é por dentro, independentemente da data no seu RG.

Se o seu relógio telomérico estiver correndo rápido demais, a boa notícia é que esse desgaste não é um destino inevitável. Existem intervenções em diferentes níveis de ousadia científica para desacelerar (ou até tentar reverter) esse processo:

Estilo de vida. Exercícios aeróbicos regulares, HIIT, o manejo do estresse crônico e a dieta mediterrânea já demonstraram preservar a atividade natural da telomerase e o comprimento dos telômeros.

Suplementação. Extratos da planta Astragalus membranaceus demonstraram em estudos a capacidade de ativar pontualmente a telomerase, apresentando resultados promissores (mas ainda não definitivos) na melhora do sistema imune de idosos.

Terapia genética. Na fronteira mais radical da medicina, cientistas já usam vetores virais para entregar o gene da telomerase (AAV-TERT) em modelos animais, estendendo a vida útil de camundongos. O caso mais famoso e controverso foi o de Liz Parrish, CEO da empresa de biotecnologia BioViva, que viajou para a Colômbia para injetar em si mesma uma terapia genética experimental para alongar seus próprios telômeros. Por enquanto, deu certo, e seus telômeros rejuvenesceram cerca de 20 anos, não que seja algo que eu faria ou indicaria.

Mapear e modular a dinâmica dos telômeros é, em última análise, entender a fronteira entre a vida útil e o prazo de validade das nossas células. A ciência já sabe como ler esse relógio; o desafio de agora é aprender a calibrá-lo com segurança.

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  Ciência na prática
Por que o equilíbrio prevê mais do que a força

Existe uma família de testes que estima quanta reserva física uma pessoa ainda tem sem usar aparelho nenhum e em menos de um minuto. Um dos mais conhecidos nasceu no Brasil. O teste de sentar e levantar do chão foi criado nos anos 1990 pelo médico Claudio Gil Araújo, na CLINIMEX, no Rio de Janeiro, e ele mede num gesto só a força, o equilíbrio, a flexibilidade e a composição corporal. Testes desse tipo vêm mostrando algo que a lista de diagnósticos do prontuário não mostra, que é o quanto o corpo ainda dá conta. A gente tratou disso na edição 70, quando a potência muscular previu mortalidade melhor do que a força.

Agora esse raciocínio foi testado em escala. Um estudo publicado na JAMA Network Open acompanhou 13.423 pessoas de 65 anos ou mais em Taiwan durante sete anos e registrou 1.631 mortes. Todas tinham feito, no começo, a mesma bateria de sete testes. Levantar e sentar da cadeira o máximo de vezes em 30 segundos, de braços cruzados no peito. Ficar de pé num pé só, de olhos abertos, até 30 segundos. Levantar da cadeira, andar dois metros e meio, contornar um cone, voltar e sentar. Somando os sete num índice único e dividindo as pessoas em cinco grupos, do pior desempenho para o melhor, o grupo que foi melhor nos testes teve 61% menos risco de morrer no período do que o grupo que foi pior, já descontados idade, sexo, peso, renda, escolaridade e dez doenças crônicas.

Teste a teste, os dois que mais separaram quem viveu de quem morreu foram o do cone e o de ficar num pé só, equilíbrio e agilidade, à frente dos de força e do de fôlego. Os de flexibilidade ficaram por último. A explicação dos autores é a queda. Equilíbrio ruim e mobilidade lenta aparecem antes dela, e a queda com fratura de quadril é uma das principais causas de internação, de perda de independência e de morte nessa idade.

O estudo é observacional, e os autores escrevem as próprias limitações. A aptidão foi medida uma vez só. A amostra exigia que a pessoa conseguisse fazer os exercícios, o que puxa para o idoso mais saudável e que anda. E não havia informação sobre tabagismo para descontar. Nada aqui prova que treinar o teste diminui a mortalidade.

A gente está acostumado a ler que precisa treinar força e capacidade aeróbica. São dois dos quatro grupos de exercício que o colégio americano de medicina do esporte descreve há mais de uma década. Os outros dois são a flexibilidade e o neuromotor, que reúne equilíbrio, agilidade e coordenação, com recomendação de duas a três vezes por semana. Foi esse quarto grupo, o que raramente entra no treino de propósito, que apareceu na frente nos sete anos de Taiwan. Esportes que pedem mudança de direção e reação, como o tênis, treinam isso o tempo todo, e uma aula de dança também. A gente mostrou na edição 76 que dez minutos de coordenação por dia já mexiam no equilíbrio em duas semanas. E dá para começar agora, de pé num pé só, de olhos abertos, contando os segundos.

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  Notícias da semana
💡 A Anvisa registrou a primeira semaglutida genérica brasileira. A patente do original caiu em março, e é agora que a queda vira preço, porque por lei um genérico precisa custar pelo menos 35% menos que o de referência. O registro é da EMS. As vendas de GLP-1 no Brasil mais que dobraram em doze meses, chegaram a R$ 14,6 bilhões e já são 5,7% de todo remédio vendido no país.
💡 O teste de sangue que promete detectar muitos cânceres de uma vez vai enfim ser avaliado pela FDA. Em 23 de setembro, um painel vota o pedido de aprovação do Galleri, da GRAIL, vendido nos Estados Unidos desde 2021 sem nunca ter sido aprovado e com a acurácia medida pela própria fabricante. A conta difícil está aí, porque achar mais câncer não é o mesmo que salvar mais vidas.
💡 O Google anunciou um recurso que estima resistência à insulina pelo pulso, sem tirar sangue. O Health Guardian também promete tendência de pressão arterial sem manguito, no Pixel Watch e no Fitbit. A validação que o Google cita é o estudo que a gente explicou na edição 85, quando ainda era pesquisa. Três semanas depois, virou produto anunciado, e ainda não chegou ao mercado.
💡 A mortalidade por câncer antes dos 50 anos caiu 56% na Noruega em três décadas. Entre 1996 e 2024 a taxa passou de 30,2 para 13,3 mortes por 100 mil, com quedas fortes em pulmão, mama e melanoma. O colorretal foi o único que não cedeu, 0,3% ao ano e sem significância. É mortalidade, não diagnóstico, medida num sistema público universal.
💡 A FDA quer acabar com a regra que deixa a indústria decidir sozinha se um ingrediente alimentar é seguro. Hoje uma empresa pode declarar por conta própria que um aditivo é seguro e colocá-lo no mercado sem avisar a agência. Pela proposta, avisar passa a ser obrigatório, e o ingrediente é presumido inseguro enquanto o aviso não chega. Comentários até 9 de dezembro.
  Vale saber
Drauzio Varella, em "Por um Fio"
  "Nada transforma tanto o homem quanto a constatação de que seu fim pode estar perto. Existe acontecimento comparável? Um grande amor? O nascimento de um filho? [...] O diagnóstico de uma doença fatal é um divisor de águas que altera radicalmente o significado do que nos cerca: relações afetivas, desejos, objetos, fantasias, e mesmo a paisagem."
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