Bom dia. Acabou recentemente o encontro anual do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, que neste ano teve como tema “Um espírito de diálogo”. Muita coisa entrou na pauta, das tensões globais às visões de grandes nomes sobre IA e, adivinha, longevidade. Até o Elon Musk foi questionado pelo entrevistador sobre a possibilidade de reverter o envelhecimento em tecidos. E, pra variar, gerou “fortes repercussões” nas comunidades (leia-se grupos de whatsapp) mundiais.

🔎 RESUMO DA EDIÇÃO DE HOJE (TL;DR)

🫒 Óleos refinados: por que eles se tornaram base da alimentação moderna, como alteram a proporção de ômega-6 e ômega-3 e por que isso importa mais do que parece para inflamação e saúde metabólica.

🧭 Como viver agora molda o futuro, por Dra. Marina Cecchini: quatro eixos do cotidiano que ajudam a transformar conhecimento em uma rotina possível, sustentável e coerente com saúde de longo prazo.

🫁 Você está se recuperando bem?: por que “como você se sente” continua sendo a métrica mais importante, e como a frequência respiratória pode funcionar como um sinal precoce de estresse e sobrecarga.

📰 Notícias da semana: o novo papel da J.P. Morgan Healthcare Conference, a entrada da OpenAI em prontuários eletrônicos com o ChatGPT Health, IA clínica dobrando valuation, aprovação da FDA para triagem automatizada em tomografias e um grande aporte em cuidado digital para doenças crônicas na Europa.

📚 Vale Saber: Matt Walker mostra o paradoxo da educação em saúde moderna: aprendemos sobre dieta, exercício e drogas, mas praticamente nada sobre sono.

MAIS UMA DISCUSSÃO

O debate dos óleos refinados

Esse é um daqueles temas importantes que geram discussões, interesses conflitantes e, curiosamente, até papos políticos (pois é, vai entender). Em grande parte, isso se deve à dimensão da indústria alimentar global. Óleos refinados estão no centro dessa engrenagem. Eles não aparecem porque são necessariamente melhores para a saúde, mas porque são baratos, estáveis e fáceis de encaixar em praticamente qualquer produto.

Como alguns de você sabem, estou relendo Good Energy, da Casey Means. Ela descreve uma cena típica: visita o pai, abre a geladeira e encontra produtos orgânicos, compras bem-intencionadas, alimentos que passam a sensação de “escolha certa”. Ao olhar os rótulos, porém, surgem sempre os mesmos ingredientes. Açúcar refinado. Óleo de canola. Em bebidas vegetais e em molhos. Não produtos obscuros, mas itens vendidos como saudáveis. Isso ajuda a explicar por que tanta gente consome óleos refinados diariamente sem perceber.

Quando falamos desses óleos, é importante ser específico. Não estamos falando de azeite de oliva extra virgem ou de óleo de abacate, obtidos por prensagem direta do alimento. Estamos falando de óleos industriais de sementes e vegetais, como soja, canola, milho e girassol. Eles são ricos em ômega-6, especialmente ácido linoleico. Ômega-6 é um nutriente essencial. O corpo não o produz e precisa obtê-lo pela alimentação. O problema não é a existência do ômega-6, mas a proporção.

Estimativas de dietas tradicionais pré-industrial indicam relações muito menores entre ômega-6 e ômega-3, frequentemente abaixo de 2 para 1. Hoje, em muitos países, essa relação ultrapassa 20 para 1. Quanto menor essa relação, melhor tende a ser o equilíbrio inflamatório do organismo. Não é só opinião: há um corpo robusto de estudos epidemiológicos e experimentais associando razões elevadas de ômega-6/ômega-3 a piores desfechos inflamatórios e metabólicos. Ômega-6 e ômega-3 competem pelas mesmas vias metabólicas. Quando o ômega-6 domina em excesso, a produção de mediadores inflamatórios aumenta, algo relacionado a boa parte dos principais problemas de saúde que enfrentamos.

O Brasil é um caso particular. Somos o maior produtor mundial de soja, e o óleo de soja se tornou base da culinária doméstica e da indústria. Ele está na cozinha, mas também em pães, biscoitos, massas, refeições prontas e alimentos processados. Além disso, uma parte relevante da produção é direcionada ao biodiesel, o que reforça sua presença e disponibilidade. Esse contexto ajuda a entender por que o consumo é alto e amplamente normalizado.

Existe ainda a questão do processamento. Diferente do azeite, óleos de sementes passam por extração com solventes, aquecimento e refino para padronização. Não é um processo bonito de se ver (tem vídeos no YouTube), mas isso importa porque o ácido linoleico é quimicamente instável. Quando aquecido, especialmente em processos industriais e frituras, ele oxida com mais facilidade. Esses produtos de oxidação ativam vias inflamatórias bem descritas. O impacto dessa proporção desbalanceada não fica só no plano teórico. Um estudo randomizado demonstrou que, em pessoas com cefaleias crônicas, uma dieta mais rica em ômega-3 e mais baixa em ômega-6 reduziu frequência e intensidade das dores. É um exemplo concreto de que ajustar essa relação altera sintomas reais.

Esse é um debate que costuma esquentar quando surge a discussão sobre o uso de gorduras saturadas, como manteiga ou até banha. Esse não é o ponto aqui. Existem indicações de que substituir gordura saturada por gordura insaturada reduz LDL. O alerta deste texto é outro: direcionar a atenção para a presença constante dos óleos vegetais refinados e, ao mesmo tempo, aumentar fontes reais de ômega-3, como peixes gordos e azeite de oliva, com o objetivo de aproximar a dieta de uma proporção mais equilibrada. Vale lembrar que talvez o maior problema, como a própria Casey Means aponta, seja o consumo indireto. Óleos refinados entram escondidos na dieta. Por isso, olhar o carrinho do supermercado com mais atenção costuma ser mais eficaz do que discutir nutrientes isolados. Reduzir alimentos processados e ultraprocessados e aumentar o consumo de comida de verdade continua sendo um bom ponto de partida.

O resumo é: óleos refinados merecem atenção. Não porque sejam veneno, mas porque empurram a dieta para uma proporção inflamatória quando usados como base. Priorizar azeite de oliva extra virgem, reduzir a presença desses óleos no dia a dia e aumentar fontes reais de ômega-3 já muda bastante o cenário.

PALAVRA DA ESPECIALISTA

Não é sobre mais anos de vida. É sobre como você está usando o tempo que tem.

Talvez você já tenha ouvido muitas promessas sobre como viver mais. Novas tecnologias, novos exames, novas métricas, novas estratégias. Mas, no fundo, a pergunta mais importante continua sendo simples: como você está usando o tempo que tem hoje?

A maioria dos adoecimentos contemporâneos não acontece porque as pessoas não saibam o que é saudável. Hoje, a informação está em todo lugar. O que mais pesa é a dificuldade de transformar esse conhecimento em uma rotina possível, estável e sustentável. Sono irregular, pouco movimento, estresse constante, excesso de estímulos e quase nenhum espaço real de recuperação. Com o tempo, esse modo de vida molda o funcionamento do organismo e afeta coração, cérebro, metabolismo, imunidade e saúde mental. Conjuntos independentes de estudos observacionais, meta-análises e grandes coortes apontam na mesma direção: padrões de sono e níveis de atividade física, quando combinados, têm forte associação com risco de mortalidade e doenças crônicas ao longo da vida, como mostram análises publicadas em revistas científicas de grande escala.

Isso significa algo simples: viver mais começa na forma como se vive agora. A seguir, quatro eixos do cotidiano que fazem diferença concreta.

1. Energia: proteger o que sustenta tudo

Energia não é apenas sentir-se disposto. É a capacidade do corpo de se regenerar, equilibrar sistemas e sustentar saúde ao longo do tempo. A prática regular de atividade física está associada à melhora da qualidade do sono e à maior eficiência da recuperação fisiológica, com impacto direto na saúde global, como demonstrado em estudos recentes sobre desempenho físico e recuperação.

Na prática: definir um horário de sono e tratá-lo como compromisso de saúde, reduzir telas e estímulos na última hora do dia e inserir pequenas pausas reais ao longo da jornada. Mesmo cinco minutos já fazem diferença.

2. Corpo em movimento: manter o organismo funcional

Movimento não é estética. É manutenção do sistema nervoso, muscular, articular e cognitivo. A combinação de atividade física regular e sono adequado está associada a melhor saúde mental, menor risco de depressão e maior bem-estar ao longo do tempo, como apontam pesquisas populacionais recentes.

Na prática: incluir algum tipo de movimento todos os dias, ainda que breve, priorizar força, mobilidade e coordenação e lembrar que caminhadas frequentes ao longo da semana protegem mais a saúde do que sessões esporádicas intensas.

3. Rotina emocional: reduzir o desgaste invisível

Grande parte do cansaço moderno não vem do corpo. Vem da mente em estado permanente de alerta. Pesquisas recentes mostram que o estresse psicológico crônico está associado a alterações fisiológicas que aumentam o risco cardiovascular e promovem inflamação sistêmica ao longo do tempo. Esse processo envolve disfunções do eixo de estresse (HPA), responsável pela regulação do cortisol e de outras respostas hormonais com impacto direto na saúde física.

Na prática: observar quais pensamentos e preocupações dominam o dia, diminuir estímulos antes de dormir e reservar diariamente um momento curto para silêncio, respiração ou escrita.

4. Direção: saber por que se vive como se vive

Ter direção clara na vida não é um luxo emocional. Estudos recentes mostram que maior senso de propósito está associado a melhor saúde cognitiva, menor risco de declínio funcional e maior longevidade.

Na prática: perguntar-se se essa forma de viver está levando você para onde deseja estar daqui a alguns anos, reavaliar escolhas que consomem energia sem devolver significado e ajustar o percurso sempre que necessário. Isso também é cuidado.

Para levar com você

Viver bem por mais tempo não depende de soluções extraordinárias. Depende de escolhas simples feitas com consistência. A nossa estrutura biológica responde diretamente à forma como a gente vive: ao ritmo dos nossos dias, à qualidade do sono, ao jeito como lidamos com o trabalho, com a pressão, com o cansaço e com as expectativas. Na prática, o problema quase nunca é falta de informação. A maioria das pessoas já sabe o que deveria fazer. O que falta, quase sempre, é conseguir encaixar isso na própria vida.

Entre reuniões, prazos, família, treinos, responsabilidades e preocupações, a pergunta real é: como transformar tudo isso em uma rotina que seja possível, sustentável e faça sentido para você? É aí que entra algo decisivo: entender o que você está tentando construir com a sua vida. Porque quando isso fica claro, as escolhas do dia a dia mudam. O jeito de trabalhar muda. A forma de cuidar da saúde muda. A relação com o tempo muda. Não por obrigação. Mas por coerência.
E é dessa coerência que nasce uma vida que funciona melhor hoje e continua funcionando melhor ao longo dos anos.

CIÊNCIA NA PRÁTICA

Você está se recuperando bem?

Uma parte essencial do exercício físico se chama recuperação, é praticamente tão importante quanto o próprio treino. Então como saber se você está se recuperando “bem”? Existe uma pergunta simples que quase sempre funciona melhor do que qualquer métrica sofisticada: como você está se sentindo hoje?

Quando olhamos dados de verdade, essa percepção subjetiva costuma performar tão bem quanto marcadores fisiológicos mais complexos. Se você está progredindo, dormindo razoavelmente bem e não sente o corpo constantemente pesado, está se sentindo com energia, a chance de algo estar fora do lugar é pequena.

O problema começa quando tentamos substituir essa percepção por números isolados.

Nos últimos anos, relógios e anéis passaram a prometer algo sedutor: medir recuperação. Variabilidade da frequência cardíaca, frequência cardíaca de repouso, frequência respiratória. Tudo aparece no aplicativo com gráficos elegantes e alertas automáticos. A ideia é boa e muitas vezes ajuda. Mas é importante sabermos interpretar.

A frequência cardíaca de repouso, medida logo ao acordar, é um marcador clássico. Quando sobe de forma sustentada (por exemplo, sua média é 60 bpm e passa para 70 bpm), algo está acontecendo: excesso de treino, pouco sono, estresse, déficit calórico ou início de doença. O ponto é que ela muda devagar. Quando sobe de forma clara, o corpo já vem lidando com esse estresse há dias ou semanas.

A variabilidade da frequência cardíaca (VFC) entrou em cena justamente por ser mais sensível. Ela reflete como o sistema nervoso está lidando com as demandas do dia a dia. Não o valor isolado, mas o padrão (o quanto você oscila em relação ao seu normal). O problema é que a VFC é extremamente sensível ao método de medição. Horário, posição do corpo, respiração, qualidade do sensor. Como o Dr. Ben Levine comentou em conversa com a Rhonda Patrick, é comum ver variações diárias de 20 a 25% apenas por mudanças nessas condições. Em relógios de pulso, o erro pode ser relevante.

Já a frequência respiratória é diferente.

Por que a respiração merece mais atenção

Medir frequência respiratória com wearables tende a ser mais simples e mais confiável. A respiração gera movimentos amplos e regulares, fáceis de captar durante o sono, mesmo em dispositivos de pulso. Não é uma métrica perfeita, mas costuma ser mais estável do que HRV em medições caseiras.

E, mais importante, ela costuma mudar cedo.

Um estudo conduzido pela Dra. Laura Bloomfield, acompanhando estudantes universitários com dados de wearables, mostrou algo bem interessante. Um aumento de 1 batimento por minuto na frequência cardíaca de repouso esteve associado a apenas 1 a 2% de aumento na probabilidade de estresse moderado a alto. Já um aumento de 1 respiração por minuto esteve associado a um aumento de 20 a 30% nessa probabilidade.

O estudo mostrou que alterações fisiológicas relacionadas ao estresse costumam aparecer muito antes de qualquer mudança clara na frequência cardíaca de repouso. Em vários casos, a FC de repouso sequer muda, enquanto a frequência respiratória e a HRV sim. A respiração começa a acelerar quando algo está fora do lugar, mesmo que o desempenho ainda esteja preservado.

Na prática, isso significa que se sua frequência respiratória noturna costuma ficar em torno de 12 respirações por minuto e passa para 14 por dois dias seguidos, algo está acontecendo. Pode ser estresse acumulado, infecção em estágio inicial, excesso de carga de treino ou recuperação insuficiente. Muitas vezes, esse sinal aparece antes de você se sentir mal.

E aqui entra o ponto importante: isso não contradiz a pergunta inicial.

“Como você está se sentindo?” continua sendo o filtro principal para decisões. Mas métricas como a frequência respiratória funcionam como um aviso antecipado. Chamam atenção para algo que, se ignorado, provavelmente vai aparecer alguns dias depois na forma de cansaço, queda de performance ou adoecimento.

Os dados não substituem a percepção. Eles ampliam o campo de visão. Por isso, saiba interpretar os dados, mas antes saiba interpretar você mesmo. O valor disso não cabe em nenhum gráfico.

NOTÍCIAS RELEVANTES

O que mais está acontecendo?

💡 A OpenAI comprou a startup Torch, que trabalhava em um sistema para unificar prontuários eletrônicos, exames, dados de wearables e outros registros de saúde em um único “contexto” para uso por IA. A equipe e a tecnologia vão integrar o ChatGPT Health, serviço recém-anunciado para ajudar pessoas a analisar e gerenciar sua saúde. Segundo o TechCrunch, o acordo teria sido um acqui-hire estimado em US$ 100 milhões.

💡 A OpenEvidence, um buscador clínico apelidado de “ChatGPT dos médicos” e usado diariamente por mais de 40% dos médicos dos EUA, levantou US$ 250 milhões e dobrou o valuation para US$ 12 bilhões em três meses desde a rodada anterior.

💡 A Aidoc recebeu autorização da FDA para uma IA que analisa tomografias e prioriza automaticamente achados críticos em filas de exames. A solução reúne 11 novas indicações mais 3 já aprovadas em um único sistema, permitindo que casos graves sejam sinalizados antes do laudo humano, algo especialmente útil em prontos-socorros lotados e serviços com grande atraso em imagens.

💡 A Oviva, uma das principais plataformas europeias de cuidado digital para obesidade e doenças crônicas, levantou US$ 220 milhões na Série D para expandir atuação e avançar iniciativas de IA. A empresa oferece acompanhamento multidisciplinar integrado ao reembolso público em mercados como Alemanha, Reino Unido e Suíça, já apoiou mais de 1 milhão de pacientes e afirma ter validação em mais de 90 estudos revisados por pares.

💡 A edição de 2026 da J.P. Morgan Healthcare Conference teve muitos encontros, mas quase nenhum anúncio bilionário, sugerindo que o evento está virando menos palco de megadeals e mais um termômetro do setor. Com empresas divulgando notícias antes do congresso e com a queda de presença de grandes pagadores, o foco ficou ainda mais em biopharma, como relata a Fierce Biotech.

VALE SABER

“Perguntei sobre o tipo de educação em saúde e bem-estar que eles (amigos e colegas) receberam na escola, enquanto cresciam. Eles receberam orientação sobre alimentação? Noventa e oito por cento disseram que sim, e muitos ainda se lembravam de alguns detalhes (mesmo que hoje essas recomendações estejam mudando). Eles receberam instruções sobre drogas, álcool, sexo seguro e saúde reprodutiva? Oitenta e sete por cento responderam que sim. A importância do exercício físico foi enfatizada em algum momento da vida escolar deles e/ou a prática de educação física era obrigatória semanalmente? Sim. Cem por cento confirmaram que era.

Quando fiz essa mesma pergunta a esse grupo diverso de pessoas sobre se haviam recebido qualquer tipo de educação sobre sono, a resposta foi igualmente universal, mas no sentido oposto: 0 por cento receberam qualquer material educativo ou informação sobre sono.”

— Fonte: Dr. Matt Walker

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