| Para viver mais e melhor. |
| longevidade.news |
| Quinta · 3 de setembro de 2026 · Edição #91 |
| Bom dia. A conquista de grandes resultados é construída ao longo de muitos anos, isso vale para praticamente tudo, e é na junção dessa preparação com a oportunidade que coisas incríveis acontecem. O Piu e seu técnico, Felipe Siqueira, receberam essa oportunidade do COB e foram para os Estados Unidos treinar em Chula Vista, muito antes de ele ser o atleta que é hoje, na mesma aposta que o Brasil tinha feito com o Joaquim Cruz nos anos 80, quando ele foi para Oregon e voltou campeão olímpico. Na quinta-feira, em Zurique, o Piu quebrou o recorde mundial dos 400 metros com barreiras correndo ao lado do Warholm, que era o dono da marca. Foi a primeira vez na história que um brasileiro bateu um recorde mundial em prova de pista. |
| Resumo da edição |
| ⚖️ O impacto de ser saudável aos 42: Entre 1964 e 1973, 2.690 finlandeses fizeram um exame aos 42 anos, com cinco medidas banais, se fumavam, o peso, a pressão, o colesterol e o açúcar no sangue. Quarenta anos depois, quem tinha as cinco na faixa boa viveu onze anos a mais do que quem não tinha nenhuma, e chegou aos 79 com menos doença e fragilidade. O que o estudo não conseguiu mostrar é que eles estavam mais felizes. E o que mais separou os grupos foi o peso ganho entre os 25 e os 42 anos. |
| 🪑 O estudo de Harvard que ninguém esperava sobre espiritualidade e longevidade: A psicóloga Priscilla Camilo parte de uma metanálise de 55 estudos e cerca de 500 mil pessoas, publicada em fevereiro na JAMA Psychiatry, para uma conclusão que mudou a pergunta clínica dela. Práticas espirituais amplas se associaram a 13% menos uso nocivo de álcool, drogas e tabaco, e a proteção apareceu como comportamento concreto, e não como sensação de paz. Segundo o autor do estudo, isso vem da prática, com ou sem religião. A espiritualidade, nesse recorte, aparece no que a pessoa deixa de fazer consigo mesma. |
| 👂 O que a audição tem a ver com a memória: Mais de 1,5 bilhão de pessoas no mundo têm algum grau de perda auditiva, e uma revisão de nove metanálises associou isso a 34% mais comprometimento cognitivo, 43% mais demência e 66% mais Alzheimer. O número do Alzheimer, porém, vem de só três dessas metanálises, que analisaram em boa parte os mesmos estudos. Um teste de audição é rápido e sem dor, e desde o ano passado dá para fazer em casa com os AirPods Pro, com aval da Anvisa. Tratar a audição devolve a conversa, e isso já é motivo suficiente. |
| 📰 Notícias da semana: O Conselho Federal de Farmácia deu ao farmacêutico papel formal no cuidado da doença crônica, incluindo a avaliação de suplemento; o Mounjaro ganhou uma indicação nova, a de reduzir risco cardiovascular no diabetes; a ARCH Venture abriu a captação de um fundo de US$ 3 bilhões para biotecnologia; a Abbott fez o primeiro sensor que lê cetona e glicose ao mesmo tempo; e um robô já pode colher sangue sozinho nos Estados Unidos. |
| 📚 Vale Saber: Uma passagem de Drauzio Varella, na coluna "A arte de envelhecer", sobre por que envelhecer não é sinônimo de decadência física para quem se movimenta, não fuma, come com parcimônia, exercita a cognição e continua atento ao mundo. |
| COMEÇAR CEDO |
| O impacto de ser saudável aos 42 |

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Em 2014, o cardiologista Eric Topol publicou na Cell um artigo bem intrigante, medicina individualizada do pré-útero ao túmulo. O Dr. Topol estava dizendo que o cuidado com a saúde de uma pessoa começa antes de ela existir, nas decisões de quem vai gerá-la, e só termina no último dia. E a Longevidade é isso, é um assunto transgeracional. Já mostramos aqui sete centenários espanhóis, de 100 a 104 anos, que fizeram vinte minutos de caminhada leve, mobilidade e elástico. Logo depois, 52 proteínas inflamatórias tinham caído no sangue deles, contra nove numa sessão em que ficaram o mesmo tempo sentados. O corpo respondeu mesmo com quem já tinha mais de um século de idade. Se as duas pontas são verdade, sobra a pergunta do meio. Vale o ditado da árvore, que o melhor momento de plantar foi há vinte anos e o segundo melhor é hoje, mas ele não diz o tamanho da diferença entre as duas datas. Um estudo publicado nesta semana no European Journal of Preventive Cardiology nos deu várias pistas. Entre 1964 e 1973, 2.690 finlandeses homens saudáveis fizeram um exame de rotina aos 42 anos. Mediram cinco coisas banais, se fumavam, o peso, a pressão, o colesterol e o açúcar no sangue uma hora depois de tomar um líquido doce. Cada homem ficou com uma nota de zero a cinco, que era só quantas dessas estavam na faixa boa. Os pesquisadores então esperaram, e voltaram ao registro de óbitos em janeiro de 2025, quando 93,8% deles já tinham morrido e todos os outros já tinham tido tempo de chegar aos 90 anos. Quem tinha as cinco medidas boas aos 42 viveu, em média, onze anos a mais do que quem não tinha nenhuma. A chance de chegar aos 90 subiu de 6,8% para 41,9%, uma escada a cada fator, sem exceção. Ou seja, quanto mais pontos aos 42, melhor. Isso responde metade da pergunta. A metade difícil é se esses anos extras valem a pena, e o estudo foi atrás dela. Em 2007, com idade média de 79 anos, os sobreviventes contaram como estavam. Estar vivo e ainda fisicamente inteiro nessa idade foi o destino de 77,1% do grupo das cinco medidas boas, contra 42,4% de quem tinha zero ou uma. Menos doença crônica, mais autonomia para se vestir e tomar banho, e diabetes em 1,9% contra 20,7%. Excelente! De certa forma mediram o que de forma genérica podemos chamar de healthspan. A terceira parte do estudo eu leio com desconfiança. Os pesquisadores também quiseram saber se aqueles homens estavam mais felizes, e perguntaram de três formas, seis perguntas de sim ou não, uma linha de dez centímetros para marcar um X entre muito infeliz e muito feliz, e uma nota de escola para a vida inteira. As três réguas deram três respostas diferentes, e só a primeira mostrou diferença firme. Felicidade e satisfação com a vida não passaram no teste. O problema aqui não é o resultado, é a pergunta. Felicidade nunca foi medida aos 42 anos, então não existe um antes para comparar com o depois, e medir contentamento com régua é bem mais difícil do que medir pressão. Mesmo assim o artigo escreve no título que houve mais felicidade. Pelo próprio número dele, não houve. E cá entre nós, felicidade e propósito é outro departamento, que tem a ver com a pergunta: "O que estou fazendo com o tempo que ganhei de presente?", mas isso deixamos para outro momento. Vale citar algumas ressalvas. São só homens, todos executivos finlandeses nascidos entre 1919 e 1934. E não houve sorteio, ou seja, quem chegou aos 42 com as cinco medidas boas já era diferente em outras coisas que não se mediu. Os cortes eram frouxos para hoje, com colesterol de 232 e pressão de 139 contando como boa nota. E as cinco medidas foram feitas uma vez só, e nunca mais refeitas. Ainda assim, o que mais separou os dois grupos não foi nada exótico. Foi o peso ganho entre os 25 e os 42 anos, 3,5 quilos em quem chegou com as cinco boas e 17,8 quilos em quem não chegou com nenhuma. Os autores fecham dizendo que, mesmo que a biologia do envelhecimento não descubra mais nada, o que não é verdade, o caminho para chegar velho inteiro já está conhecido. Do pré-útero ao túmulo é um percurso longo, uma jornada que sempre pode melhorar, independente de onde você começa, mas que quanto antes for, melhor. Comece a plantar hoje. |
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| A voz do especialista |
| O estudo de Harvard que ninguém esperava sobre espiritualidade e longevidade |

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O fenômeno da religião e da espiritualidade foi tema do meu mestrado. Na época, o que mais me chamava atenção não era a fé em si, mas o que vinha grudado nela: culpa, falta de perdão, falta de sentido. Eram fenômenos recorrentes, apareciam em quase todo relato, independentemente da crença de cada pessoa. E esse tema nunca saiu dos meus atendimentos. Não importa se a pessoa se dizia religiosa, agnóstica ou "nada disso, doutora", em algum momento da terapia, quase sempre surgia uma pergunta que não cabia só na psicologia: "qual é o sentido de tudo isso?" Por muito tempo, tratei isso como um tema existencial. Importante, sim, mas distante da minha outra grande obsessão clínica: entender por que algumas pessoas envelhecem com mais saúde, mais leveza e mais tempo de vida do que outras. O que eu não esperava era descobrir, ano após ano, que esses dois fios, sentido e longevidade, estavam entrelaçados o tempo todo. E não é só percepção clínica. Em fevereiro deste ano, saiu um estudo que me fez revisar tudo que eu pensava saber sobre o assunto. O estudo que mudou a pergunta Foi conduzido por Harvard T.H. Chan School of Public Health e publicado na JAMA Psychiatry. Quem liderou foi o Dr. Howard Koh, professor de liderança em saúde pública, o mesmo pesquisador que, em 2024, já havia coautorado um estudo tratando a espiritualidade como determinante de saúde, ao lado de nomes como Tyler VanderWeele. Esse novo estudo não é uma pesquisa nova do zero. É uma metanálise: uma síntese cuidadosa de dados de cerca de 500 mil participantes, reunidos de 55 estudos conduzidos desde o ano 2000. Ou seja, não é uma amostra pequena nem um achado isolado, é duas décadas de evidência sendo colocadas lado a lado. E aqui é onde a curiosidade começa a apertar: o que exatamente esse volume gigantesco de dados revelou? A primeira pista, e ela engana A resposta óbvia seria: "pessoas espirituais vivem mais porque têm fé, esperança, um propósito maior." E sim, isso aparece nos dados, a literatura associa espiritualidade a menos depressão, menos risco de suicídio e melhor mortalidade geral. Mas essa não é a parte mais interessante. A parte mais interessante é o que aconteceu quando os pesquisadores foram atrás do mecanismo, ou seja, não só "espiritualidade está associada a mais saúde", mas por onde essa proteção passa. E o que encontraram desmontou uma ideia que eu, particularmente, carregava há anos. A tese contraintuitiva A gente costuma pensar em espiritualidade como algo abstrato: crença, fé, transcendência, algo que "acalma a alma" e, por tabela, favorece o corpo. Uma espécie de bônus emocional. Só que o estudo de Koh aponta outra direção. Ele mostra que práticas espirituais amplas, que vão de frequentar serviços religiosos a meditar ou orar, estiveram associadas a 13% menos risco de uso nocivo de drogas, álcool ou tabaco. E quando o recorte era só frequência religiosa regular, essa redução subia para 18%. Ou seja: o benefício não aparece só como "sensação de paz" ou "conforto existencial" flutuando no ar. Ele aparece como comportamento protetor concreto, menos consumo de substâncias que, sabemos, corroem anos de vida. A espiritualidade, nesse recorte, não é o que você sente. É o que você deixa de fazer consigo mesma. Essa inversão muda a pergunta clínica que eu fazia há anos. Eu perguntava: "que sentido essa pessoa está construindo?" Talvez a pergunta certa seja: "que comportamento esse sentido está sustentando, ou deixando de sustentar?" E o giro final Tem uma frase do Koh, na entrevista sobre o estudo, que resume o ponto mais contraintuitivo de todos, e que quebra uma suposição que quase todo mundo faz sem perceber. Ele separa, com todas as letras, espiritualidade de religião. Diz que um número crescente de pessoas hoje se declara "espiritual, mas não religiosa", e que isso, por si só, já parece contar para os desfechos de saúde observados. Na visão dele, a espiritualidade pode envolver religião, mas não depende dela. Ou seja: você não precisa de uma instituição, um templo ou um dogma para colher esse benefício. Precisa de prática: orar, meditar, se reunir com propósito, se conectar com algo além de si. Isso muda como eu escuto, na sessão, quando alguém diz "eu não sou religiosa, mas...". Porque, pelos dados mais recentes que temos, esse "mas" pode estar carregando mais proteção biológica do que a gente supunha. E se a longevidade não depender do que você acredita, mas de como você pratica o que acredita? |
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| Ciência na prática |
| O que a audição tem a ver com a memória |

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Mais de 1,5 bilhão de pessoas no mundo têm algum grau de perda auditiva, número da Organização Mundial da Saúde. Num rastreio comunitário feito com adultos acima de 55 anos, seis em cada dez tinham perda medida no exame. Ou seja, não é problema raro. E ele não termina em si mesmo. Quem ouve mal tem também mais risco de perder memória e raciocínio, agora uma revisão publicada na Frontiers in Aging Neuroscience juntou nove metanálises sobre o assunto, e a mais antiga delas é de 2016. Somadas, elas chegam a 34% mais risco de comprometimento cognitivo, 43% mais risco de demência e 66% mais risco de Alzheimer. Já tratamos aqui de como proteger o cérebro, e a audição não estava naquela conversa. Agora está. Só que o maior desses três números, o 66% do Alzheimer, pede cuidado. Das nove metanálises, só três mediram Alzheimer. As outras seis mediram demência em geral ou perda de raciocínio, que não é a mesma coisa. E essas três analisaram, em grande parte, os mesmos estudos originais. Por isso os resultados delas batem tão bem entre si. Não são três confirmações, é o mesmo dado contado três vezes. O 66% é a conta certa do que foi medido, mas tem muito menos estudo por trás do que parece. Tem também a questão da direção. Quem causa o que? Como eles são estudos de observação, e demência em fase inicial já atrapalha a forma como o cérebro processa som, parte da perda auditiva medida pode ser consequência da doença, e não causa dela. O que fazer com isso, por outro lado, é simples. Um teste de audição é rápido e não dói. E, mirando nesse mercado, a Apple lançou no ano passado, nos próprios fones AirPods Pro e com aval da Anvisa, um teste de audição e um recurso de aparelho auditivo. Nos Estados Unidos, foi o primeiro software de aparelho auditivo liberado para venda sem receita. Serve para perda leve a moderada já identificada, em maiores de 18 anos, e não substitui avaliação. O teste leva cinco minutos e dá para fazer em casa. O que não dá para prometer é que aparelho auditivo previne demência. Os próprios autores escrevem que existe evidência de que ajude, mas que o tamanho do efeito e a causalidade ainda estão por estabelecer, e pedem estudos sorteados para resolver isso. Ainda assim, o caminho mais provável entre o ouvido e o cérebro não é um grande mistério, por isso esse estudo tem sentido. Quem ouve mal fala menos, pergunta menos, sai menos e se afasta. Outro estudo recente, com participantes na China e nos Estados Unidos, mostrou que quem tinha perda auditiva progrediu mais para a fragilidade e se recuperou menos, com o isolamento social entrando no mesmo modelo. Tratar a audição talvez não proteja o neurônio, mas devolve a conversa e fortalece o pilar da comunidade, e isso já é motivo suficiente. |
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| Notícias da semana |
| 💡 O farmacêutico ganhou papel formal no cuidado da doença crônica. A Resolução nº 13 do Conselho Federal de Farmácia, de 28/08, o autoriza a avaliar risco cardiovascular, acompanhar paciente à distância e examinar o pé do diabético. E o encarrega de definir, por evidência, que suplemento entra no cuidado. Dez dias depois de o CRM do Paraná tirar o suplemento do consultório, ele passa a ser avaliado na farmácia. |
| 💡 O Mounjaro ganhou uma indicação nova, a de reduzir risco cardiovascular. A Lilly conseguiu a aprovação nos Estados Unidos com um estudo de 13.299 pessoas em 30 países, por quatro anos, que comparou a tirzepatida com outro remédio da mesma família, e não com placebo. Os eventos caíram 8%, mas a margem de erro inclui diferença nenhuma. O remédio se mostrou não pior que o concorrente, e isso virou indicação. |
| 💡 A ARCH Venture abriu a captação de um novo fundo de US$ 3 bilhões. A gestora registrou a oferta na SEC em 31 de agosto, ainda sem nada captado. A ARCH investe em biotecnologia em estágio inicial, entrando em seed e Série A, e é uma das maiores financiadoras do setor nos Estados Unidos. O fundo anterior, de 2024, fechou no mesmo patamar de US$ 3 bilhões. |
| 💡 A Abbott fez o primeiro sensor que lê cetona e glicose ao mesmo tempo. Cetona é o combustível que o corpo fabrica queimando gordura quando falta açúcar. O Libre Duo lê as duas sob a pele a cada minuto e foi liberado para diabéticos. O caminho já é conhecido. Foi a mesma Abbott que levou a glicose contínua ao consumidor saudável, com o Lingo em 2024, a US$ 49. |
| 💡 Um robô já pode colher seu sangue sozinho, sem mão humana. O Aletta, da holandesa Vitestro, localiza a veia com infravermelho e ultrassom, distingue veia de artéria, aplica o torniquete e faz a punção. Se não encontra veia adequada, não tenta. Foi liberado nos Estados Unidos para adultos em ambulatório, com um profissional treinado supervisionando até três aparelhos ao mesmo tempo. |
| Vale saber |
| Drauzio Varella, em "A arte de envelhecer", Folha de S.Paulo |
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| Antes de fechar |
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Próxima edição na quinta, às 12:12.
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