Bom dia. Chegou mais uma edição. A longevidade é um lembrete constante de que, por mais avançada que esteja a ciência, o impacto real depende das escolhas que fazemos todos os dias. A tecnologia ajuda. O conhecimento orienta. Mas é a ação que transforma.

🔎 RESUMO DA EDIÇÃO DE HOJE (TL;DR)

💪 Exercício e cérebro: Alta aptidão cardiorrespiratória está associada a cerca de 40% menos risco de demência, e o maior ganho ocorre ao sair do sedentarismo. Além do aeróbico, treino de força e práticas como tai chi e dança também mostram benefício cognitivo. A base da proteção cerebral começa no movimento.

🧬 Da célula aos sistemas complexos, com Dra. Vânia Assaly: A longevidade não é apenas genética, mas resultado da interação entre genoma e expossoma em redes biológicas interconectadas. Resiliência e flexibilidade metabólica surgem como fenômenos mensuráveis que determinam como o organismo responde às pressões ambientais ao longo da vida.

🧠 Soneca e plasticidade: Estudo na NeuroImage mostrou que uma soneca de cerca de 40 minutos reduz a “carga” acumulada nas conexões neurais e melhora a capacidade do cérebro de fortalecer circuitos específicos. Em termos práticos, pode restaurar a eficiência para aprender e consolidar novas habilidades.

📰 Notícias da semana: Nature Medicine descreveu exame de sangue baseado em p-tau217 capaz de estimar quando sintomas de Alzheimer podem surgir. A Korsana levantou US$ 175 milhões para desenvolver anticorpo anti-amiloide com potencial de reduzir ARIA. A Hims & Hers anunciou aquisição da Eucalyptus por até US$ 1,15 bilhão para expandir sua plataforma global de telemedicina. E estudo na Nature encontrou mais neurônios recém-formados em “super agers”, sugerindo ligação entre neurogênese e memória preservada.

📚 Vale Saber: Robert Lustig diferencia nutrição de ciência dos alimentos e argumenta que o processamento é o verdadeiro fator invisível que molda saúde metabólica. Sua síntese: proteger o fígado e alimentar o intestino

SEU CÉREBRO

Como proteger seu cérebro para as próximas décadas

Quando as pessoas pensam em proteger o cérebro, quase sempre imaginam palavras cruzadas, suplementos caros ou algum exame sofisticado. Mas, se você me perguntar qual é a intervenção mais consistente na literatura científica para manter a cognição ao longo das décadas, a resposta é, adivinhe: exercício físico.

Grandes estudos observacionais mostram que pessoas com alta aptidão cardiorrespiratória apresentam cerca de 40% menos risco de desenvolver demência quando comparadas às de baixa aptidão. Em análises de longo prazo, além de menor risco, o início dos sintomas tende a ocorrer mais tarde.

Mas o dado que mais me chama atenção é outro.

O maior benefício acontece quando você sai do sedentarismo. Em um acompanhamento de 15 anos com mais de 50 mil adultos, apenas 5 a 10 minutos por dia de corrida leve se associaram a uma redução significativa de mortalidade geral e cardiovascular. Em outro estudo com cerca de 85 mil pessoas, 15 minutos diários de caminhada rápida já produziram redução mensurável em mortalidade total. O salto mais importante é do zero para algum movimento. Depois disso, os ganhos continuam, mas em ritmo mais gradual.

Quando falamos especificamente de cérebro, exercício aeróbico é o mais estudado. Meta-análises mostram melhora consistente em atenção, velocidade de processamento e memória. Em um estudo clássico com um ano de intervenção, adultos mais velhos que fizeram treino aeróbico tiveram aumento de volume do hipocampo, enquanto o grupo controle apresentou redução. O hipocampo é uma das primeiras regiões afetadas na doença de Alzheimer.

Mas proteger o cérebro não é só correr ou pedalar.

Treino de força também apresenta efeito cognitivo. Meta-análises mostram melhora significativa em função executiva, especialmente planejamento, controle inibitório e atenção sustentada. Em pessoas com comprometimento cognitivo leve, sessões de musculação duas vezes por semana demonstraram benefício mensurável nessas funções, mesmo quando memória de curto prazo não mudou.

Existe ainda um terceiro grupo que merece atenção.

Práticas como tai chi, dança e yoga apresentam efeitos cognitivos robustos em revisões sistemáticas. Em algumas comparações, participantes dessas modalidades tiveram desempenho superior ao de indivíduos que praticavam apenas exercício aeróbico tradicional. A explicação provável é a combinação de estímulo cardiovascular moderado, aprendizado motor, foco atencional e interação social. E, por lógica, esportes que exigem coordenação e tomada de decisão, como tênis, também parecem caminhar na mesma direção.

O resumo ideal seria algo assim:

  • pelo menos 150 minutos semanais de atividade aeróbica moderada. Z1/Z2

  • pelo menos 1 sessão de alta intensidade (HIIT)

  • 2 sessões semanais de treino de força

  • incluir alguma prática que desafie coordenação e atenção

Proteger o cérebro não começa quando aparecem sintomas. Começa hoje. E mesmo após diagnóstico de comprometimento cognitivo leve, iniciar atividade física regular ainda reduz risco de progressão.

Se você quer fazer algo concreto para proteger seu cérebro nos próximos 20 ou 30 anos, a pergunta não é qual suplemento escolher. A pergunta é: estou fazendo o mínimo necessário de exercício? Se não, já sabe. Se sim, aí você vai atrás dos suplementos importantes pra você.

PALAVRA DA ESPECIALISTA

Longevidade: Da célula aos sistemas complexo. Do genoma ao expossoma

Envelhecer não é um evento. É um processo sistêmico, adaptativo e relacional.

Durante muito tempo, estudamos o envelhecimento a partir da célula. DNA, mitocôndrias, telômeros e vias metabólicas. A biologia molecular trouxe precisão. Os hallmarks organizaram o mapa. Mas hoje compreendemos que a célula não vive isolada. Ela existe em rede.

A longevidade é um fenômeno emergente de sistemas complexos.

O genoma oferece o potencial biológico.

O expossoma é o vetor ambiental que exerce pressão contínua sobre esse potencial.

Alimentação, sono, poluentes, atividade física, estresse, relações, propósito e também o expossoma interno. O microbioma, nosso grande ecossistema.

Essa somatória organiza redes que interagem permanentemente com o sistema biológico.

Essa interação não é abstrata. Ela é processada por camadas regulatórias.

  1. O epigenoma modula a expressão gênica.

  2. O transcriptoma direciona a produção de RNA.

  3. O proteoma traduz essa informação em proteínas funcionais.

  4. O metaboloma expressa o estado bioquímico dinâmico do organismo.

São essas camadas que revelam como o organismo responde às pressões ambientais.

Genes não determinam destino. Eles respondem a vetores ambientais por meio dessas camadas intermediárias organizadas em redes complexas.

A ciência das redes, descrita por Albert László Barabási, reforça essa visão. Sistemas biológicos não são lineares. São estruturas interconectadas, com nós centrais e hubs regulatórios.

Quando um hub metabólico ou inflamatório se desregula, múltiplos sistemas são impactados.

A doença não é um ponto isolado.

É uma perturbação na teia.

A genética fornece o roteiro.

O expossoma exerce pressão.

A resposta adaptativa define a trajetória.

E nessa grande teia, a resiliência surge como fenômeno biológico. Não apenas um conceito filosófico. É mensurável.

Diante de desafios, o eixo hipotálamo hipófise adrenal é ativado. O sistema simpático mobiliza energia. Cortisol e catecolaminas entram em ação. Esse mecanismo é necessário.

O problema não é a ativação.

É a incapacidade de recuperar.

A saúde está na resiliência e na flexibilidade.

A alternância equilibrada entre simpático e parassimpático, refletida na variabilidade da frequência cardíaca, traduz capacidade adaptativa. A flexibilidade metabólica revela a habilidade de preservar energia na escassez e mobilizá-la quando necessário.

Resiliência é ativar e retornar ao equilíbrio.

Flexibilidade é coerência metabólica.

Da célula à consciência, somos teias vivas.

A longevidade não é apenas extensão de tempo.

É manutenção de coerência em sistemas complexos.

CIÊNCIA NA PRÁTICA

Uma soneca pode “recalibrar” o seu cérebro?

À medida que você passa o dia acordado, aprendendo, decidindo, resolvendo problemas, as conexões entre seus neurônios vão ficando mais fortes. Pense nelas como trilhas na areia: quanto mais você passa pelo mesmo caminho, mais fundo ele fica. Isso é o que chamamos de plasticidade sináptica. O problema é que, depois de muitas horas acordado, o cérebro pode ficar “saturado”. As trilhas estão tão marcadas que sobra menos espaço para abrir caminhos novos.

Um estudo publicado em janeiro de 2026 na NeuroImage tentou entender uma coisa: uma soneca à tarde é suficiente para reorganizar esse terreno? Vinte adultos jovens passaram por duas condições em laboratório: em um dia, puderam dormir por uma hora à tarde; em outro, permaneceram acordados. Depois disso, os pesquisadores avaliaram a excitabilidade do córtex motor usando estimulação magnética transcraniana. Em termos simples, aplicaram pulsos magnéticos no couro cabeludo para ver quão facilmente aquela região do cérebro ativava um músculo da mão. Também mediram as ondas theta no EEG, um tipo de oscilação elétrica que tende a aumentar quanto mais tempo ficamos acordados e que funciona como um marcador indireto de “acúmulo” de força nas conexões neurais.

Os participantes dormiram em média 43 minutos, quase todo o tempo em sono não REM, principalmente nos estágios N2 e N3. Após a soneca, foi preciso um estímulo magnético um pouco mais forte para provocar a mesma resposta muscular, o que sugere uma menor força global das conexões. No dia em que ficaram acordados, as ondas theta aumentaram, consistente com maior carga acumulada.

Em seguida, os pesquisadores tentaram “forçar” o cérebro a fortalecer conexões específicas por meio de um protocolo chamado paired associative stimulation,que busca induzir um fortalecimento específico, semelhante à potenciação de longo prazo, um mecanismo central do aprendizado. Após a soneca, o cérebro respondeu melhor a esse “treino”: cerca de 80% dos participantes mostraram aumento da resposta neural 75 minutos depois, contra 55% quando permaneceram acordados.

Uma forma simples de visualizar isso é pensar no seu cérebro como um computador ao longo do dia. Você vai salvando arquivos: ideias, tarefas, detalhes, decisões. Depois de horas, a área de trabalho começa a ficar cheia. Os arquivos continuam ali, mas encontrar o que importa e transformar aquilo em algo novo fica mais difícil. Na prática, isso significa que, depois de horas estudando ou trabalhando, você ainda consegue absorver informação, mas sua capacidade de fortalecer novas conexões com eficiência começa a cair.

Ao tirar uma soneca, o cérebro volta a um ponto de maior organização. Isso pode se traduzir em melhor capacidade de aprender algo novo, consolidar uma habilidade motora ou manter foco em uma tarefa que exige precisão. Seu cérebro volta a estar mais plástico, mais disponível para mudança.

Vale lembrar que o estudo é pequeno e não incluiu uma condição placebo, o que limita conclusões definitivas. Ainda assim, ele sugere algo que você pode testar na prática e observar como funciona para você. Um dos pilares da Longevidade é a personalização. Por isso, mais importante do que a teoria é entender como o seu cérebro responde. E se você quiser entender a soneca com mais profundidade leia um artigo recente que escrevemos.

NOTÍCIAS

O que mais está acontecendo?

💡 Um estudo publicado na Nature Medicine descreve um exame de sangue baseado na proteína p-tau217 que pode estimar não apenas se alguém desenvolverá Alzheimer, mas também quando os sintomas devem surgir, com margem de erro de 3 a 4 anos. Se validado, pode antecipar intervenções e facilitar ensaios clínicos.

💡 A Korsana Biosciences saiu do stealth com US$ 175 milhões para desenvolver terapias para doenças neurodegenerativas. Seu programa líder, KRSA-028, é um anticorpo contra beta-amiloide desenhado para melhorar a entrega ao cérebro e reduzir riscos como ARIA, um efeito adverso que pode causar inchaço ou micro-sangramentos cerebrais em terapias atuais para Alzheimer. Dados clínicos são esperados para 2027.

💡 A Hims & Hers anunciou a aquisição da Eucalyptus por até US$ 1,15 bilhão, acelerando sua expansão internacional. A Eucalyptus opera marcas de telemedicina e prescrição digital (como Juniper e Pilot), com consultas online e entrega de tratamentos, e já atendeu mais de 775 mil clientes em países como Austrália, Reino Unido, Alemanha e Canadá. A transação deve fechar em meados de 2026.

💡 Uma análise nacional com 47 mil adultos dos EUA, publicada no JAMA Network Open, mostrou que homens mantêm 63% maior risco de mortalidade geral do que mulheres, mesmo após ajustar para tabagismo, álcool, renda, doenças crônicas e acesso à saúde. O achado reforça que fatores biológicos, além de comportamento, podem explicar parte da diferença de expectativa de vida.

💡 Um estudo publicado na Nature encontrou maior quantidade de neurônios recém-formados no hipocampo de idosos com memória preservada, incluindo “super agers” acima de 80 anos. Embora representem apenas cerca de 0,01% das células da região, essas novas células foram menos frequentes em pessoas com Alzheimer. O achado reforça a hipótese de que manter a capacidade de gerar neurônios pode estar ligado à preservação da memória ao longo do envelhecimento.

VALE SABER

“Nutrição não é a mesma coisa que ciência dos alimentos. Nutrição é o que acontece com o alimento entre a boca e a célula. Ciência dos alimentos é o que acontece com o alimento entre o solo e a boca. Uma depende da outra, mas ambas são “opacas” para o público. Isso é proposital — porque a indústria de alimentos e o governo não querem que você saiba que é o processamento dos alimentos que tornou obsoletos os conceitos atuais de nutrição.

O processamento dos alimentos não aparece no rótulo de Informação Nutricional. O rótulo diz o que há no alimento. Isso é, em grande parte, irrelevante — o que você realmente precisa saber é o que foi feito com o alimento, e nenhum rótulo informa isso.

Neste livro, tornarei tanto a nutrição quanto a ciência dos alimentos transparentes. Essencialmente, tudo o que você precisa saber se resume a dois preceitos, seis palavras no total:

  1. proteja o fígado

  2. alimente o intestino”

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