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Quinta · 22 de outubro de 2026 · Edição #98

Buenos! Na semana que passou vimos um carro que salta por cima de outros carros e, alguns anos antes, um foguete que dá ré. A tecnologia tem se mostrado capaz de desafiar o senso comum. Na longevidade não vai ser diferente. Eu acredito num futuro em que a gente vai ter hábitos muito melhores e uma tecnologia que vai nos ajudar onde não conseguiremos sozinhos.

  Resumo da edição
🧪 O que muda no corpo da mulher no ano da última menstruação: A gente costuma achar que o corpo envelhece aos poucos, mas na mulher muita coisa muda de uma vez no ano da última menstruação. Um estudo com mais de 1 milhão de mulheres mostrou que a maioria dos exames de sangue dá esse salto, e que os hormônios começam a mudar anos antes. Você vai ver o que isso muda na conversa com o médico.
🧭 O que queremos continuar podendo fazer? A psicóloga Dra. Marina Cecchini propõe uma pergunta que muda o jeito de olhar a saúde: o que você quer continuar podendo fazer, e o que hoje dificulta isso? Ela mostra por que força, memória e coração ganham sentido quando a gente pensa no que eles permitem, de subir a escada de casa a viajar.
🫀 O efeito do agachamento isométrico: Ficar parado com as costas na parede, uns 14 minutos três vezes por semana, baixou a pressão em um mês. Um estudo inglês mostrou o que acontece quando a rotina aperta: quem manteve as três sessões continuou melhorando, quem caiu para uma segurou metade do ganho, e quem parou voltou a ficar igual a quem nunca treinou. Você vai ver como fazer em casa.
📰 Notícias da semana: A Alice captou US$ 40 milhões para colocar a inteligência artificial no centro do plano de saúde, e quem usa caneta para emagrecer está comprando mais proteína e creatina. E ainda tem o anel da Oura estimando o VO2 máximo, a capa de colchão aprovada para ajudar a diagnosticar apneia e quase 1 milhão de profissionais de saúde americanos consultando uma IA.
📚 Vale Saber: Fechamos com Sêneca, que há quase dois mil anos já dizia que a vida é longa o bastante para quem sabe usar o tempo que tem.
  MENOPAUSA
O que muda no corpo da mulher no ano da última menstruação

Muitas vezes acreditamos que o envelhecimento é um processo que nos afeta de forma contínua. Sim, muitas vezes é, mas nem sempre. A queda da nossa reserva muscular, por exemplo, quando olhada pessoa a pessoa, acontece muito mais em degraus, impulsionada por lesões, doenças e cirurgias, ou seja, tempo parado, que nos faz descer um degrau do qual muitas vezes não conseguimos voltar. Contamos isso na edição 2, a partir de uma entrevista do pesquisador Luc van Loon.

A mesma coisa parece acontecer com a saúde das mulheres quando olhamos sob o prisma da menopausa, e é um baita degrau. Essa, pelo menos, é a visão que traz um novo e grande estudo, com mais de 1 milhão de mulheres nos Estados Unidos e em Israel.

O trabalho é do grupo de Uri Alon, do Instituto Weizmann, em Israel, publicado em 12 de outubro na Nature Medicine, e apareceu nas notícias da edição passada. Quando olhamos os exames das mulheres pela idade, eles parecem mudar devagar, dos 40 aos 60 anos. Só que cada mulher chega à última menstruação numa idade diferente, metade das americanas entre 45 e 53 anos. Se uma mulher dá o degrau aos 47 e outra aos 53, a média das duas pela idade vira uma descida suave entre os 47 e os 53, e o degrau some. Com uma técnica inspirada na astronomia, parecida com a que tira o borrão de uma foto do céu feita com telescópio, os pesquisadores reconstruíram a curva média de mais de 300 milhões de exames como se todas as mulheres estivessem alinhadas pela data da última menstruação.

Aí o degrau aparece. Em 52 de 90 exames, o valor muda de uma vez no ano da última menstruação, e a maioria na direção de mais risco. Entram osso, fígado, gorduras do sangue e a concentração de sais no sangue, além dos próprios hormônios. As exceções são o ferro e os glóbulos vermelhos, que melhoram, provavelmente porque o sangramento para. Nos homens da mesma idade, os mesmos exames mudam devagar, sem degrau, e nas mulheres o tamanho do degrau foi parecido nos Estados Unidos e em Israel.

Os hormônios mudam muito antes do degrau. Eles começam a mudar mais rápido de 12 a 15 anos antes da última menstruação, uns 7 anos mais cedo do que os estudos que acompanham as mesmas mulheres ao longo do tempo tinham mostrado. Para uma mulher que vai parar de menstruar aos 50, isso quer dizer que, em média, os hormônios no sangue já mudam de ritmo entre os 35 e os 38 anos.

Depois da menopausa, osteoporose, infarto e AVC passam a crescer mais rápido, e a osteoporose ganha velocidade bem acima da dos homens. O humor e o sono também mudam. Num questionário com americanas, 19% das que tinham parado de menstruar havia menos de um ano mostravam sintomas de depressão moderada ou grave, contra 11% nos anos seguintes, e a dificuldade para dormir sobe nesse ano e depois diminui. O estudo dá base para o que muitas mulheres contam sentir nesse período.

Nas mulheres que faziam reposição hormonal, o degrau foi menor, principalmente no osso, no fígado e no rim. A exceção foi a proteína C-reativa, um marcador de inflamação, que subiu, embora a reposição em geral reduza a inflamação. Os autores ligam isso ao comprimido, que passa primeiro pelo fígado, o mesmo caminho que explica o risco de coágulo do TP3 da edição 97. É uma associação, e os próprios autores lembram que quem faz reposição pode ser mais saudável ou ter mais acesso a médico. O estudo não responde se vale fazer reposição, e essa decisão continua com o médico, caso a caso. Ele também compara mulheres diferentes em idades diferentes, em vez de acompanhar as mesmas mulheres durante a transição.

Na prática, a data da última menstruação, que só se confirma depois de 12 meses sem menstruar, mostra o momento em que muitos exames mudam, coisa que a idade sozinha esconde. A Febrasgo, a federação dos ginecologistas, já recomenda que a consulta dos anos em volta da menopausa procure pressão alta, diabetes, obesidade, cigarro, colesterol alterado e sinais de depressão, e o estudo mostra por que vale olhar isso perto dessa data. Se você é mulher, leve essa conversa ao seu médico. Se convive com uma mulher nessa fase, saiba que esse degrau é de verdade, inclusive no humor e no sono. Com o músculo, aprendemos que o cuidado começa antes do degrau, e com a menopausa vale o mesmo.

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Apoio institucional UNIDAS
Recife recebe o 29º Congresso Internacional UNIDAS
De 28 a 30 de outubro, o Recife Expo Center recebe o 29º Congresso Internacional UNIDAS, um dos encontros mais relevantes da saúde suplementar brasileira. A UNIDAS representa as autogestões, os planos de saúde mantidos por empresas e instituições para os próprios funcionários, e o congresso reúne dirigentes, gestores e profissionais de saúde em torno do tema “Inovação além dos limites da saúde suplementar”, com abertura do presidente da ANS, a agência que regula os planos.
Para quem acompanha a longevidade, o destaque é a palestra internacional sobre envelhecimento saudável, no dia 29, que discute como os planos de saúde podem transformar o cuidado com os idosos, com Marcelo Schapira, chefe de geriatria do Hospital Italiano de Buenos Aires. A programação também passa por medicina de precisão no câncer, inteligência de dados e uma oficina do InCor sobre inovação no cuidado.
29º Congresso Internacional UNIDAS, 28 a 30 de outubro, Recife
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  A voz do especialista
O que queremos continuar podendo fazer?
MC
 
Texto escrito por
Psicóloga clínica e do esporte.

Força, cognição e saúde cardiovascular ganham relevância quando compreendemos o que permitem sustentar na vida de cada pessoa.

Subir escadas para continuar morando na própria casa. Ter força para carregar um neto. Conseguir acompanhar uma conversa, viajar ou retomar uma atividade que ficou para depois.

Quando falamos em longevidade, são essas possibilidades que dão uma dimensão concreta às capacidades que buscamos preservar.

As discussões sobre envelhecimento têm avançado na investigação dos mecanismos biológicos e das intervenções capazes de preservar a saúde. Nesse cenário, uma pergunta merece acompanhar a leitura dos resultados: o que essa capacidade permite à pessoa continuar fazendo e vivendo?

A Organização Mundial da Saúde oferece uma referência para essa discussão. Sua definição de envelhecimento saudável considera a capacidade funcional que possibilita bem-estar na velhice, construída na interação entre as condições da pessoa e o ambiente. Manter relações, aprender e tomar decisões fazem parte desse horizonte.

Isso tem consequências práticas. Melhorar a mobilidade pode ampliar a autonomia, mas sair de casa também depende de transporte, segurança e acessibilidade. Pode depender, ainda, de ter aonde ir e com quem se encontrar. Para compreender o alcance de uma melhora, precisamos acompanhar o que acontece no cotidiano.

Onde entra o sentido de vida?

Uma metanálise publicada no Journal of Affective Disorders reuniu 278 estudos e mais de 252 mil participantes. Os autores encontraram uma associação negativa moderada entre sentido de vida e depressão: níveis mais elevados de sentido estiveram associados a níveis mais baixos de depressão.

O achado merece atenção, com precisão na interpretação. Essa associação não estabelece causalidade nem demonstra que encontrar um propósito previna ou trate depressão. Também seria inadequado transformar o sentido de vida em mais uma exigência dirigida a quem está sofrendo.

Sua contribuição para o cuidado pode começar por perguntas: o que mobiliza o interesse dessa pessoa? Quais relações sustentam seu cotidiano? O que mudou depois de uma doença, de uma perda ou da aposentadoria? Que possibilidades permanecem abertas e quais precisam ser reconstruídas?

Em uma perspectiva fenomenológica e existencial, compreender o sentido exige atenção à maneira como alguém vive suas relações e circunstâncias. Ele pode se manifestar no trabalho, no cuidado com outra pessoa, na prática esportiva, na aprendizagem ou em um encontro semanal. Sua expressão é particular e pode mudar ao longo da vida.

Uma pergunta a acrescentar à consulta

Ao lado da investigação sobre sintomas, riscos e desempenho, vale perguntar:

“O que você quer continuar podendo fazer e o que, hoje, dificulta isso?”

A resposta pode ajudar a definir prioridades. Preservar força para caminhar durante uma viagem, recuperar confiança para voltar à piscina ou manter condições de participar das decisões da família são objetivos que aproximam o acompanhamento da experiência de quem recebe o cuidado.

Esses objetivos também precisam ser revistos. Uma mudança de saúde pode exigir adaptações; uma transição de vida pode alterar o que merece investimento. Acompanhar esse percurso implica reconhecer perdas e construir possibilidades compatíveis com as condições atuais.

A psicologia contribui para a longevidade ao investigar como cada pessoa vive essas mudanças, participa de suas escolhas e encontra condições para se envolver com a própria vida.

Quando avaliamos uma intervenção, podemos perguntar quanto uma capacidade melhorou. E podemos avançar: o que essa melhora tornou possível na vida dessa pessoa?

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  Ciência na prática
O efeito do agachamento isométrico

Desculpa, mas preciso repetir, exercício é uma das coisas mais importantes para a longevidade. E como o assunto é vasto, tem muito para aprendermos. Hoje o assunto é saber treinar de forma inteligente. Já sabemos que o nosso foco deveria ser de no mínimo 3 vezes de 50 minutos por semana de exercício aeróbico (correr, nadar, pedalar etc.) e no mínimo 2 vezes por semana de musculação.

O problema é que às vezes a rotina não permite, então podemos tentar ser mais inteligentes e fazer do limão uma limonada. Como fazer isso é o que um estudo recente tentou responder, usando a pressão arterial de pessoas sedentárias como avaliação. Deixa eu explicar.

O exercício do estudo é o agachamento isométrico na parede. Isométrico é o exercício em que o músculo faz força sem se mexer, e aqui a pessoa encosta as costas na parede, desce até dobrar os joelhos e fica parada ali. Numa revisão de 270 estudos publicada em 2023 no British Journal of Sports Medicine, o isométrico foi o tipo de exercício que mais baixou a pressão de cima, chamada de sistólica, e o agachamento na parede ficou no topo.

O estudo novo é do grupo de Jonathan Wiles, da Canterbury Christ Church University, na Inglaterra, publicado em 29 de setembro no BMJ Open Sport & Exercise Medicine. Foram 100 adultos sedentários, com 37 anos em média, pressão de cima entre 120 e 140 e sem remédio. Oitenta treinaram em casa por quatro semanas, com 4 séries de 2 minutos de agachamento e 2 minutos sentado entre elas, 3 vezes por semana, o que dá uns 14 minutos por sessão. Os outros 20 não treinaram e serviram de comparação. Em um mês, a pressão de cima de quem treinou caiu uns 9 pontos, e a dos 20 que não treinaram quase não mudou (num 13 por 8, é como o 130 cair para 121). Depois, os 80 seguiram por mais quatro semanas com 3, 2, 1 ou nenhuma sessão por semana, conforme um sorteio feito no início.

Quem manteve as 3 sessões continuou melhorando e terminou cerca de 14 pontos abaixo de onde começou. Quem caiu para 1 ou 2 ficou com cerca de 7, metade disso, e a pressão já vinha subindo de novo. Uma e duas sessões deram o mesmo resultado. Quem parou ficou, em um mês, igual a quem nunca treinou. Ou seja, na semana apertada uma sessão segura parte do ganho, e só quem ficou nas três manteve o ganho inteiro.

Os autores sugerem que a perda é rápida porque quatro semanas mudam o funcionamento dos vasos, que relaxam mais, e a estrutura da artéria, que fica mais larga e com a parede mais fina, só muda com oito semanas ou mais, quando o efeito tende a durar mais. Um estudo na Colômbia, de outro grupo e com 77 pessoas que já tinham pressão alta, 27 delas no agachamento, reforça isso. Depois de três meses de agachamento 3 vezes por semana, uma sessão semanal manteve a queda da pressão por mais três meses.

Em casa, sem o teste de laboratório que o estudo usou para escolher a altura de cada um, dá para escolher a altura pela sensação de esforço, como o mesmo grupo inglês testou. A quarta série deve terminar com esforço de 8 a 9, numa escala de 0 a 10, com a canela na vertical e respirando normalmente, sem prender o ar. Lembre que os estudos têm seus limites. Os participantes ainda não tinham pressão alta, eram 20 por grupo e boa parte dessa pesquisa vem do mesmo grupo. A Diretriz Brasileira de Hipertensão de 2025 reconhece o efeito do isométrico na pressão medida no consultório, mas mantém o aeróbico como base, porque só ele mostrou baixar a pressão ao longo das 24 horas. O agachamento soma, sem substituir aeróbico nem remédio, e quem tem pressão alta deve conversar com o médico antes.

Se a sua semana apertar, o limão vira limonada com 14 minutos e uma parede. Mantenha pelo menos uma sessão e volte às três assim que der.

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  Notícias da semana
💡 A Alice, plano de saúde brasileiro, captou US$ 40 milhões para colocar a inteligência artificial no centro do atendimento. A rodada foi liderada pela IFC, braço do Banco Mundial que investe em empresas. O dinheiro vai para um assistente no aplicativo que lê o histórico do cliente e indica o caminho, da telemedicina ao hospital. É uma aposta de que a IA pode organizar o cuidado e gastar menos.
💡 Quem usa caneta para emagrecer está comprando mais proteína e creatina. Na Drogaria Araujo, de Minas Gerais, a venda de suplemento de proteína subiu 53% de janeiro a agosto, e a rede liga a alta às canetas. Na mesma semana, Renato Cariani lançou um creme de proteína pensado para esse público. Faz sentido, porque quem perde peso rápido precisa de proteína e de treino para não perder músculo junto.
💡 O anel da Oura passou a estimar o VO2 máximo sozinho. O VO2 máximo é quanto oxigênio o corpo consegue usar no esforço máximo, e é um dos números que melhor indicam quanto tempo a gente vive. O anel faz a conta a partir das caminhadas e corridas gravadas com GPS. É uma estimativa, ainda em fase de teste, e não substitui o exame na esteira com máscara.
💡 A capa de colchão da Eight Sleep foi aprovada em Abu Dhabi para ajudar a diagnosticar apneia do sono em casa. Apneia são as paradas da respiração durante o sono. Com a aprovação, o médico pode prescrever a capa para quem tem suspeita, e o resultado passa por ele. Na mesma semana, a empresa recebeu investimento da ResMed, fabricante do CPAP, o aparelho que trata a apneia.
💡 Quase 1 milhão de profissionais de saúde dos Estados Unidos já consultam uma inteligência artificial. Um estudo publicado na JAMA analisou o OpenEvidence, plataforma que responde perguntas clínicas com base em artigos científicos. Metade das perguntas dos médicos era para decidir o que fazer com o paciente. Ou seja, a IA já entrou no consultório, e o estudo ainda não mediu se as respostas estão certas.
  Vale saber
Sêneca, em "Sobre a Brevidade da Vida" (c. 49 d.C.)
  "Não é pouco o tempo que temos, mas perdemos muito dele. A vida é longa o bastante, e nos foi dada com generosidade para realizar as coisas mais importantes, se for toda bem empregada. Mas quando ela se esvai no luxo e no descuido, quando não é gasta em nada de bom, só no fim, forçados pela necessidade, percebemos que já passou aquela que nem notamos passar. É assim: não recebemos uma vida curta, nós a fizemos curta; não somos pobres de vida, somos esbanjadores."
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