Quando pensamos em longevidade, uma das perguntas centrais costuma ser esta: você se exercita?
Ela continua e sempre continuará fundamental. Exercício físico estruturado segue sendo, provavelmente, a intervenção mais “multiplicadora” que existe. Impacta saúde mental, metabólica, cardiovascular, inflamatória e muito mais. Se fosse possível encapsular o exercício, ele seria, sem exagero, o remédio mais potente já criado para viver mais e melhor.
Mas queria te convidar a olhar para isso por outro ângulo.
Mesmo fazendo tudo “certo”, o exercício ocupa uma ou duas horas do seu dia. E aí sobra o resto. Algo como 90% do seu tempo acordado. Trabalho. Casa. Deslocamento. Mercado. Fila. Reunião. Telefonema. Criança. Escada. Elevador.
É nesse espaço enorme que entra um conceito que mudou a forma como eu passei a enxergar a rotina: NEAT.
NEAT vem de Non-Exercise Activity Thermogenesis. Em português, é o gasto de energia gerado por tudo que envolve movimento fora do exercício estruturado. Coisas simples e cotidianas: caminhar até um lugar, subir escadas, arrumar a casa, ir ao supermercado, ficar mais tempo em pé. Até aqueles movimentos automáticos quando você está pensando entram na conta.
Se você fizer o mínimo recomendado pela OMS de exercício moderado, cerca de 150 minutos por semana, isso significa que algo como 97% do seu tempo acordado será ocupado por outras atividades. Fica quase óbvio que o “como” você vive esse resto tem um impacto enorme na sua saúde ao longo da vida.
Provavelmente você já conheceu alguém que viveu muito, sem nunca ter “treinado”, mas que era fisicamente ativo o dia inteiro. Gente que fazia tudo a pé, subia escadas, mexia no jardim, resolvia a própria vida. Não tinha planilha. Tinha movimento.
Exercício estruturado é um aporte grande e concentrado, e sempre será essencial. O NEAT é o pingado constante. É ele que, somado dia após dia, ajuda a definir o resultado ao longo dos anos.
O que a ciência mostra
Existe ciência séria olhando para isso. Um dos estudos mais conhecidos foi liderado por James Levine. Os pesquisadores mediram postura e movimento de pessoas por vários dias seguidos, usando sensores, e encontraram um padrão impressionante: em média, pessoas com obesidade ficavam sentadas cerca de 2 horas e 15 minutos a mais por dia do que pessoas magras, mesmo em ambientes semelhantes. Não era uma questão de escolha consciente ou "preguiça". Era padrão de vida medido objetivamente. Os autores estimaram que adotar o padrão de movimento do grupo mais ativo poderia representar centenas de calorias a mais gastas por dia, o que, ao longo do tempo, se torna muito relevante.
Um achado ainda mais revelador vem de um experimento onde pesquisadores deram a voluntários 1.000 calorias extras por dia durante 8 semanas. O resultado? Enorme variação no ganho de peso entre indivíduos, alguns dos quais 'desperdiçavam' as calorias extras simplesmente movimentando-se mais involuntariamente. Isto sugere que NEAT não é apenas um 'padrão,' mas um mecanismo adaptativo.
Um convite para “o perceber”
Passos são hoje a forma mais comum de medir atividade. Isso tem mérito. Mas também tem um risco: virar apenas um número que você “bate” e esquece.
Ser “ativo” funciona mais como água do que como remédio. Você não bebe toda a água do dia em cinco minutos. Você distribui. Do mesmo jeito, correr 7 km em uma hora ajuda, mas não apaga um dia inteiro sentado.
Exercício segue sendo fundamental. Mas ele não pode ser visto como bala de prata.
O convite aqui é olhar para as pequenas decisões do dia: falar ao telefone andando, estacionar um pouco mais longe, subir um lance de escada, fazer parte do deslocamento a pé, criar motivos para levantar, brincar com filhos ou netos, se movimentar mais dentro de casa.
A pergunta prática que fica é: como está o resto do seu dia acordado?
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