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| Quinta · 8 de outubro de 2026 · Edição #96 |
Bom dia. Essa semana foram anunciados os ganhadores do Prêmio Nobel de algumas categorias, e o de Medicina foi para o estudo de como, usando luz, podemos influenciar neurônios. A luz é daquelas coisas ainda abundantes, ainda mais no Brasil, e isso muitas vezes a torna imperceptível, assim como a nossa respiração. As duas, na verdade, têm grande influência na nossa vida, de regular o sono a reduzir o estresse, aumentar a imunidade e por aí vai. E a reflexão é sobre as coisas abundantes, e muitas vezes gratuitas, que temos e que podem nos ajudar a viver mais e melhor. Sobre respiração, indico fortemente o livro Breath, do James Nestor, que saiu no Brasil como Respire, e o audiobook é ótimo. Importante. Está chegando o Congresso Internacional UNIDAS, que acontece em Recife, de 28 a 30 de outubro. Assinantes da News ganham 10% de desconto na inscrição. Os detalhes estão mais abaixo. |
| Resumo da edição |
| 🫀 Depois do infarto, exercício é tratamento: Na edição 94 noticiamos a revisão da Cochrane sobre reabilitação cardíaca, e agora a gente abre o estudo. Juntando 107 estudos, o exercício supervisionado diminuiu a chance de um novo infarto e de voltar ao hospital no primeiro ano. Você vai ver o que é a reabilitação, por que tão pouca gente faz no Brasil e por que vale falar dela com quem passou por um infarto. |
| 📈 Da medicina episódica para a longitudinal: A Dra. Vânia Assaly conta o que viu em quase quatro décadas de consultório, a doença quase nunca nasce no dia do diagnóstico. Ela propõe trocar os retratos soltos de cada consulta pela curva dos exames ao longo dos anos, comparando cada pessoa com ela mesma. E lembra que a ausência de sintomas, muitas vezes, é só o corpo compensando. |
| 🪑 Treinar não basta se você passa o dia sentado: O exercício estruturado e o NEAT, a energia que você gasta fora do treino, são as duas metades da atividade física. Um estudo japonês mostrou que o treino melhorou o condicionamento, mas não impediu a artéria da perna de perder função depois de horas sentado. Você vai ver por que isso acontece e que tipo de pausa ajuda. |
| 📰 Notícias da semana: A expectativa de vida no mundo voltou ao nível de antes da pandemia, mas a vida com saúde ainda não. O Nobel de Medicina foi para uma técnica que controla neurônios com luz. E ainda tem o anel que mede a pressão sem manguito, a emergência por sarampo em Nova York e a Smart Fit comprando parte da maior rede de spas do Brasil. |
| 📚 Vale Saber: Fechamos com Florence Nightingale, a enfermeira inglesa que ajudou a fundar a enfermagem moderna e que, em 1859, já escrevia que a doença é o fim de um processo que começou muito antes, sem ser notado. |
| CORAÇÃO |
| Depois do infarto, exercício é tratamento |

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Na edição 94, noticiamos uma revisão muito interessante feita por um grupo de grande renome científico, a Cochrane, rede que leva o nome do médico escocês Archie Cochrane e que junta, com critério, todos os estudos sobre uma mesma pergunta. A pergunta desta vez era se o exercício funciona como tratamento para quem já tem doença nas artérias do coração. A resposta é sim, e ela muda o que vale a pena pedir ao médico depois de um infarto. O tratamento se chama reabilitação cardíaca. É um programa de exercício supervisionado para quem teve infarto, colocou stent, fez ponte de safena ou tem angina, a dor no peito que aparece no esforço. O mais comum é exercício aeróbico, como bicicleta ergométrica, caminhada e circuito, de uma a sete vezes por semana, em sessões de 20 a 90 minutos, por uns seis meses. Em parte dos programas vêm junto orientação sobre hábitos e apoio psicológico, e eles podem ser feitos no hospital, em casa ou com acompanhamento por aplicativo. A revisão, publicada em setembro, é a quinta versão de um trabalho que começou em 2001 e reúne 107 estudos com sorteio, com quase 27 mil pessoas. Em todos, um grupo fez reabilitação e o outro não fez exercício estruturado. No primeiro ano, a reabilitação evitou um infarto a cada 71 pessoas tratadas, e esse é o resultado em que os autores têm mais confiança. As internações também caíram, uma a menos a cada 17 pessoas, e a qualidade de vida melhorou. A queda das mortes nesse primeiro ano foi pequena e incerta, mas, nos estudos que acompanharam as pessoas por mais tempo, morreu menos gente por causa do coração. Ou seja, o exercício diminui a chance de um novo infarto e de voltar ao hospital, e a pessoa vive melhor. E oito estudos de custo mostraram que o programa compensa o que custa. Faz sentido quando a gente lembra o que o exercício faz no coração. Com o treino, o músculo passa a precisar de menos oxigênio para o mesmo esforço, os vasos funcionam melhor, o sangue fica menos propenso a coágulos, a inflamação cai e podem se formar pequenos vasos que contornam o trecho entupido. Somam-se a isso a melhora da pressão e do colesterol e a ajuda para largar o cigarro. E o treino supervisionado é seguro. Num levantamento com mais de 25 mil pessoas em reabilitação, houve um evento cardíaco a cada 50 mil horas de exercício. A versão nova traz três avanços. Entraram mais mulheres, programas feitos em casa e por aplicativo, e estudos em países de renda média, entre eles um brasileiro, com pacientes da rede pública, o primeiro do tipo na América Latina. Isso aproxima o resultado da nossa realidade. Os autores apontam alguns limites. Um quarto dos estudos é de antes dos remédios que se usam hoje, e por isso o ganho em sobrevida, com o tratamento atual, deve ser menor. A maior parte dos estudos não registrou quanto exercício as pessoas fizeram de fato, e as mulheres continuam sendo só 17% dos participantes. E o número das internações foi o único em que os autores viram sinal de viés de estudos pequenos, que costumam ser publicados quando dão resultado positivo. Eu ficaria com o infarto evitado como o dado mais firme. O problema maior, você deve imaginar, é chegar à reabilitação. No mundo, de 10% a 60% das pessoas com indicação participam de um programa. No Brasil, a diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2020 estimava que fosse menos de 15%, e dizia que a maior parte das capitais não tinha um único serviço. Por isso a própria diretriz recomenda a reabilitação em casa, com orientação a distância, como alternativa. Doenças cardiovasculares são as que mais matam no mundo, e é muito comum a gente conhecer alguém que passou por um episódio desses. Então, lembre-se de que a reabilitação traz resultado. Se você conhece alguém que teve um infarto, colocou stent ou fez ponte de safena há pouco tempo, não deixe de mencionar a reabilitação, lembrando que pouca gente chega a fazer. Quanto mais a gente fala disso, maior a chance de essa pessoa procurar um programa. |
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| Recife recebe o 29º Congresso Internacional UNIDAS | ||
| De 28 a 30 de outubro, o Recife Expo Center recebe o 29º Congresso Internacional UNIDAS, um dos encontros mais relevantes da saúde suplementar brasileira. A UNIDAS representa as autogestões, os planos de saúde mantidos por empresas e instituições para os próprios funcionários, e o congresso reúne dirigentes, gestores e profissionais de saúde em torno do tema “Inovação além dos limites da saúde suplementar”, com abertura do presidente da ANS, a agência que regula os planos. | ||
| Para quem acompanha a longevidade, o destaque é a palestra internacional sobre envelhecimento saudável, no dia 29, que discute como os planos de saúde podem transformar o cuidado com os idosos, com Marcelo Schapira, chefe de geriatria do Hospital Italiano de Buenos Aires. A programação também passa por medicina de precisão no câncer, inteligência de dados e uma oficina do InCor sobre inovação no cuidado. | ||
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| A voz do especialista |
| Da medicina episódica para a longitudinal |

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Passei quase quatro décadas dentro do consultório e há uma cena que se repete com uma regularidade: o paciente chega porque algo doeu, cansou ou parou de funcionar como antes. Ele espera um diagnóstico, uma receita, um alívio. E, na maioria das vezes, é exatamente isso que a medicina tradicional entrega: uma resposta pontual para um problema pontual. Resolve-se a crise e o paciente volta ao mesmo ambiente, as mesmas circunstâncias. Esse é o modelo que chamo de medicina episódica: uma sucessão de fotografias isoladas de uma pessoa que, na verdade, está em movimento contínuo. Cada consulta é um retrato solto, sem relação clara com o retrato anterior nem com o seguinte. Trata-se a hipertensão quando ela aparece, o colesterol quando ele sobe, a fadiga quando ela já compromete a rotina. O problema não é tratar, mas o timing do tratamento ou tratar uma causa sem contexto. A doença que já estava lá A doença, contudo, quase nunca nasce no dia em que é diagnosticada. Ela vem sendo construída, muitas vezes, por anos. Uma resistência insulínica não surge da noite para o dia; ela se anuncia em exames de glicemia discretamente crescentes, em padrões de sono que se deterioram, em marcadores inflamatórios que sobem alguns pontos a cada ano sem nunca cruzar, sozinhos, o limiar do "alterado". Isoladamente, cada um desses sinais parece irrelevante. Juntos, ao longo do tempo, contam uma história completamente diferente. O que é medicina longitudinal É aqui que proponho uma mudança de lógica: sair dos diagnósticos estáticos e passar a acompanhar o movimento longitudinal da nossa saúde. A isso chamo de medicina longitudinal, que é uma abordagem que não espera o sintoma aparecer para agir, mas que investiga, mede e acompanha as manifestações clínicas muito antes de a doença se instalar. Para isso não precisamos fazer mais exames por fazer, e sim fazer os exames certos, repeti-los com método e lê-los em série, comparando cada pessoa com sua própria linha de base. Essa mudança parece sutil, mas é radical. A medicina baseada em sintomas pergunta: "o que está errado agora?" A medicina longitudinal pergunta: "para onde essa trajetória está indo, e o que podemos fazer hoje para mudá-la?" A primeira pergunta é reativa por natureza. A segunda é, necessariamente, preventiva e é nela que mora o verdadeiro potencial da medicina da longevidade. O que muda na prática Na prática clínica, isso significa dar menos peso ao valor isolado de um exame e mais peso à sua curva. Significa investigar composição corporal, marcadores metabólicos, hormonais e inflamatórios de forma regular, não apenas quando algo já dói. Significa também ampliar o que entendemos por dado clínico relevante: qualidade do sono, variabilidade da frequência cardíaca, densidade muscular, capacidade cardiorrespiratória. Tudo isso fala sobre o futuro de uma pessoa muito antes de qualquer doença receber um nome no prontuário. O obstáculo talvez seja cultural Há, claro, um obstáculo cultural importante. Fomos treinados (pacientes e, muitas vezes, também profissionais de saúde) a associar cuidado médico a queixa. Vai-se ao médico quando algo incomoda. Interromper esse padrão exige reeducar a relação das pessoas com o próprio corpo: ensinar que a ausência de sintomas não é sinônimo de saúde, apenas de compensação. O corpo humano é extraordinariamente competente em mascarar desequilíbrios por anos, até que a capacidade de compensação se esgota e é exatamente nesse momento que a doença "aparece", embora estivesse ali, se formando, havia muito tempo. A medicina personalizada e a medicina longitudinal não são modismos nem promessas de uma vida sem limites. São, na verdade, um retorno a algo bastante simples: observar a pessoa como uma trajetória única, não como uma série de emergências desconectadas. É trocar o pronto-socorro do organismo pela cartografia dele. Se há algo que a ciência da longevidade nos ensinou nos últimos anos, é que ganhar anos de vida sem ganhar anos de saúde é uma vitória incompleta. E essa vitória completa não se conquista no dia em que o sintoma bate à porta. Ela se constrói muito antes nas escolhas, nos dados acompanhados ao longo do tempo e na coragem de investigar o que ainda não dói, mas já fala. |
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| Ciência na prática |
| Treinar não basta se você passa o dia sentado |

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Atividade física tem duas metades que se completam. A primeira é o exercício estruturado, como a musculação, a corrida, a natação, entre outros. A segunda é o NEAT, conceito que apresentamos na edição 61, que é toda a energia que você gasta ao longo do dia fora do exercício, andando, subindo escada, ficando em pé, resolvendo as coisas da casa. É o que a gente chama de ser ativo no dia a dia. A gente sabe que precisa das duas. E, intuitivamente, sabe também que não adianta treinar e passar o resto do dia sentado no escritório, o mal da vida moderna, que é viver atrás do computador. Agora, um estudo testou essa intuição nas artérias. Pesquisadores japoneses, num estudo publicado em abril na Experimental Physiology, dividiram por sorteio 22 jovens saudáveis em dois grupos. Um grupo treinou por 8 semanas, quatro vezes por semana, com tiros de 20 segundos muito fortes na bicicleta e 10 segundos de descanso entre eles. O outro manteve a rotina. Antes e depois das 8 semanas, todos passaram 3 horas sentados, sem mexer as pernas, e os pesquisadores mediram com ultrassom a artéria que passa atrás do joelho. O teste funciona assim. Um manguito, como o de medir pressão, aperta a perna por 5 minutos e, quando ele é solto, o sangue volta com força. Uma artéria saudável responde se alargando, e quanto mais ela se alarga, melhor está a parede dela. O treino melhorou a capacidade aeróbica em 12%. Mas as 3 horas sentado reduziram o fluxo de sangue na perna e a capacidade da artéria de se alargar nos dois grupos, antes e depois das 8 semanas. Quem treinou se saiu um pouco melhor, mas o treino não impediu a queda. Faz sentido quando a gente lembra como o sangue circula na perna. Sentado, a panturrilha para de trabalhar, o joelho dobrado deixa a artéria em ângulo e o sangue passa devagar. A parede da artéria precisa do sangue passando com força para produzir óxido nítrico, a substância que a faz relaxar e se alargar. A saída é interromper o tempo sentado. Uma meta-análise, estudo que junta os resultados de vários outros, publicada em 2026 na Nutrition & Metabolism, reuniu 36 estudos com 632 adultos, três deles feitos no Brasil. Levantar e se mexer por poucos minutos durante o tempo sentado melhorou a capacidade da artéria de se alargar, aumentou o fluxo de sangue e baixou um pouco a pressão. Caminhar, subir escada e fazer exercício com o peso do corpo funcionaram. Ou seja, o NEAT ajuda a proteger as artérias de um jeito que o treino sozinho não consegue. Lembre que os estudos têm seus limites. Foram poucos jovens saudáveis, a artéria foi medida no mesmo dia, sem acompanhar infarto ou AVC, e as pausas também foram testadas num dia só. Mesmo assim, o resultado combina com o que vimos na edição 75, quando nenhum número de passos compensou 14 horas sentado para a doença do coração. E não contradiz a edição 9, em que o risco de morte ligado ao tempo sentado sumia em pessoas com diabetes que se exercitavam, porque lá se mediu morte e aqui, a artéria durante as horas sentado. Treino e NEAT continuam sendo as duas metades, e uma não substitui a outra. Se você passa o dia sentado, levante a cada 30 a 60 minutos e se mexa por 2 a 5 minutos, de preferência subindo uma escada ou caminhando, que foi o que a meta-análise sugeriu. |
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| Notícias da semana |
| 💡 A expectativa de vida no mundo voltou ao nível de antes da pandemia, mas a vida com saúde ainda não. Pelos números da OMS de 2 de outubro, a média chegou a 73,3 anos em 2023, mas só 62,8 com saúde, uma diferença de dez anos. As doenças crônicas já causam 74% das mortes, e a demência subiu de 19ª para 5ª causa de morte desde 2000. |
| 💡 O Nobel de Medicina de 2026 foi para a optogenética, técnica que liga e desliga neurônios com luz. Peter Hegemann e Georg Nagel descobriram numa alga uma proteína que abre um canal quando recebe luz azul, e Karl Deisseroth a transformou num interruptor de neurônios. Com ela, os cientistas mapeiam os circuitos da memória e do comportamento, e já testam a técnica para recuperar a visão de quem a perdeu. |
| 💡 A FDA, a agência americana de saúde, liberou um anel que mede a pressão sem manguito e sem calibração. Segundo a Happy Health, que fabrica o anel, é o primeiro aparelho de usar no corpo com essa liberação. Ele mede a pressão sozinho, ao longo do dia. Pressão alta é um dos principais fatores de risco do coração, e medir com frequência ajuda a pegar o problema cedo. |
| 💡 Nova York declarou estado de emergência por causa do sarampo. São 108 casos no estado em 2026, a maioria em comunidades rurais com pouca gente vacinada, e farmacêuticos, paramédicos e parteiras passaram a poder aplicar a vacina. Os Estados Unidos somam 3.887 casos no ano. Para quem vai viajar, vale conferir na carteira se está em dia com a tríplice viral, a vacina do sarampo. |
| 💡 A Smart Fit vai comprar até 20% do Buddha Spa, a maior rede de spas do Brasil, por até R$ 32 milhões, com opção de chegar a 30%. A rede de massagens tem 149 unidades em 12 estados. Segundo a Smart Fit, a compra amplia sua presença em saúde e bem-estar. É uma rede de academias apostando que o cliente quer cuidar do corpo também fora do treino. |
| Vale saber |
| Florence Nightingale, em "Notes on Nursing" (1859) |
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