Acho que todo mundo já percebeu como a tarde costuma pedir um descanso. Logo depois do almoço o corpo desacelera, a concentração cai, e um cochilo parece quase irresistível. E esse é o assunto de hoje: soneca. A pergunta não é se soneca é “certa” ou “errada”, mas se ela ajuda ou atrapalha quem está pensando em saúde a longo prazo.

A melhor resposta que temos hoje vem de uma meta-análise publicada em 2024, que reuniu 44 estudos com 1,86 milhão de pessoas. De forma objetiva, a conclusão é: não é só cochilar ou não cochilar que importa. É a duração e o padrão desses cochilos.

O ponto central está nos 30 minutos. Na análise por subgrupos, pessoas que cochilavam 30 minutos ou mais tinham risco 18% maior de morrer por qualquer causa, 20% maior de ter doenças cardiovasculares e 16% maior de ter doenças metabólicas, em comparação com quem não cochilava. Já quem cochilava menos de 30 minutos não apresentou aumento estatisticamente significativo de risco nesses desfechos.

Por que isso acontece? Uma explicação provável é que cochilos longos sejam, muitas vezes, sinal de outro problema: sono noturno ruim, apneia não diagnosticada, sedentarismo, depressão, uso de medicações. Em vários estudos, cochilos prolongados se associam a maior índice de massa corporal, hipertensão, diabetes e síndrome metabólica. A meta-análise deixa claro que o cochilo prolongado não é a causa, mas muitas vezes um marcador de algo mais profundo acontecendo no corpo.

Ao mesmo tempo, a mesma meta-análise mostra o outro lado. Cochilos regulares aparecem associados a menor risco de comprometimento cognitivo (cerca de 28% de redução) e menor risco de sarcopenia (aproximadamente 13% de redução). Em idosos, por exemplo, uma soneca curta pode ajudar a manter função cerebral e muscular em um contexto de sono noturno fragmentado ou de maior vulnerabilidade neurológica.

Quando olhamos estudos experimentais, o quadro fica ainda mais interessante. Ensaios controlados mostram que cochilos de 10 a 20 minutos melhoram atenção, memória, velocidade de processamento e humor por algumas horas. Um estudo da NASA com pilotos, frequentemente citado, encontrou melhora de cerca de 50% no estado de alerta após um cochilo de 26 minutos. Meta-análise em atletas também indica melhor desempenho físico após sonecas, especialmente quando houve restrição parcial de sono na noite anterior. Isso mostra o potencial da soneca curta, o famoso “power nap”.

O ponto em comum é a estrutura do sono. Cochilos de 10 a 30 minutos tendem a ficar nos estágios mais leves, o que facilita acordar bem e reduz o impacto no relógio biológico. Quando a soneca se alonga, aumenta a chance de entrar em sono profundo, acordar atordoado e ainda bagunçar o sono noturno.

Para quem pensa em longevidade, algumas ideias práticas emergem desse conjunto de dados:

  • Priorizar o sono noturno: a base continua sendo 7 a 9 horas de sono de boa qualidade por noite. Soneca não substitui isso.

  • Ver a soneca como complemento, não muleta: se o cochilo é curto, no início da tarde (13h–15h), e você acorda bem, ele pode ser um recurso valioso.

  • Desconfiar da soneca longa e obrigatória: se você precisa dormir mais de 30 minutos todos os dias para funcionar, vale investigar sono noturno, respiração, humor, atividade física e condições médicas associadas.

  • Manter um padrão estável: grande variação na duração e no horário das sonecas também se associa a piores desfechos em alguns estudos. Consistência importa.

No fim, o contexto como sempre importa muito e você precisa ter atenção para entender por que está precisando desse complemento diário. Nunca esqueça que o sono é parte fundamental da longevidade e que priorizar um sono de qualidade faz milagres no nosso dia a dia.

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