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| Quinta · 13 de agosto de 2026 · Edição #88 |
| Bom dia. No sábado passado, dia 8, foi lançada oficialmente a Sociedade Brasileira de Medicina e Ciência da Longevidade. Sou um dos oito cofundadores, ao lado de gente que admiro muito, e fico feliz de participar desse primeiro capítulo. O Brasil entra numa onda que já acontece pelo mundo, de países que passaram a olhar para a saúde com outra lente. O lançamento reuniu cerca de 100 pessoas incríveis, entre cientistas, profissionais de saúde, investidores, empreendedores, atletas de alta performance, e a conversa foi da ciência à clínica, da tecnologia aos novos modelos de negócio. Esse foi só o primeiro passo. |
| Resumo da edição |
| 🐭 O que um rato do deserto pode nos ensinar: Duas espécies irmãs dividem o mesmo deserto rochoso em Israel, e a que foi expulsa para o turno do dia envelheceu de outro jeito. Ela para de engordar, mantém a atividade a vida toda, e os velhos foram melhor que os jovens em dois testes de força. Os pesquisadores foram atrás do que separa uma da outra, chegaram a uma proteína, e ela melhorou camundongos comuns de laboratório em duas semanas. Roedores são mais de 40% dos mamíferos, e a ciência do envelhecimento olha quase sempre para as mesmas duas linhagens. |
| 🥩 Longevidade e a importância do aminograma: A Dra. Ana Paula de Souza mostra por que contar gramas de proteína não basta. A diferença está na composição, na velocidade de absorção e na proporção entre os aminoácidos, em especial entre metionina e glicina. Proteína animal em excesso mantém ligada a via de crescimento da célula e desliga os programas de reparo. Depois dos 60 anos, com a resistência anabólica e o risco de sarcopenia, a conta muda de lado e o aporte precisa ser mais bem pensado. |
| 🦷 Como a falta de um dente impacta a longevidade: Um estudo japonês acompanhou 3,4 milhões de pessoas com 65 anos ou mais e trocou a pergunta de sempre. Em vez de contar quantos dentes ainda havia na boca, contou quantos pares ainda se encontravam, porque mastigar é trabalho de dois. Quem tinha perdido os quatro pontos de encontro do fundo apareceu com 73% mais risco de morrer. Entre quem já tinha perdido, quem usava prótese morreu menos do que quem não repôs nada. |
| 📰 Notícias da semana: A Anvisa derrubou as proibições que travavam remédio nos aplicativos de entrega, sem ainda autorizar a venda; o colégio americano de cardiologia propôs tratar coração, memória e fragilidade como um problema só em idosos que já têm doença cardiovascular; vinte equipes chegaram à final da corrida de 101 milhões do XPRIZE Healthspan; duas fabricantes de vitamina foram compradas por conglomerados de consumo em três dias; e Demis Hassabis saiu do comando do dia a dia da Google DeepMind. |
| 📚 Vale Saber: Uma passagem de Walter Willett, de Harvard, sobre quanto das penalidades que a gente considera inevitáveis do envelhecimento está, de fato, na mão de cada um. |
| A PERGUNTA |
| O que um rato do deserto pode nos ensinar? |

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No fim de semana passado, no lançamento da Sociedade Brasileira de Medicina e Ciência da Longevidade, uma das palestras foi da professora Mayana Zatz, geneticista da USP. Entre os trabalhos que ela mostrou estava o de um rato do deserto de Israel que chega à velhice sem perder função. O estudo saiu na Science Advances. Existem dezoito espécies de camundongo espinhoso, todas de região árida. Duas delas dividem o mesmo deserto rochoso, e uma expulsou a outra do turno da noite. O dourado, o Acomys russatus, ficou com o dia, que ali é a parte quente e exposta, e foi se ajeitando. Ganhou pele escura, mais vitamina C nos olhos, urina mais concentrada, e a capacidade de baixar o próprio gasto de energia para atravessar longos períodos sem comida. Esse experimento não saiu de um laboratório. Ele estava pronto no deserto, esperando alguém reparar. Os pesquisadores criaram colônias das duas espécies e passaram anos medindo. A irmã noturna envelhece como se espera, engorda ano após ano, anda menos e explora menos. O dourado estabiliza o peso a partir de um ano e meio e mantém a atividade a vida toda. Num teste de suspensão em arame e num de travessia de barra, os dourados velhos foram melhor que os jovens. O timo, que é o órgão que envelhece mais rápido de todos, ainda tinha arquitetura de bicho novo depois dos três anos e meio, enquanto o camundongo de laboratório de dois anos e meio já tinha o timo tomado de gordura e fibrose. A pergunta que produziu esse trabalho está escrita na introdução do paper, e ela vale tanto quanto o achado. A ciência do envelhecimento se apoia quase toda em duas linhagens de laboratório, o camundongo e o rato, criadas há décadas em ambiente estéril e controlado. Roedores são mais de 40% de todas as espécies de mamíferos. O que a evolução já resolveu nos outros roedores fica invisível para quem só olha as duas linhagens de sempre. Procurando o que separa uma espécie da outra, eles chegaram a uma proteína chamada clusterina, elevada nos macrófagos do dourado. Macrófago é a célula de defesa encarregada de engolir e limpar restos de tecido danificado, e é ela que mantém acesa a inflamação crônica quando esse trabalho de limpeza começa a falhar. Ela reaparece em dois lugares. Entre mamíferos, quanto maior a expressão de clusterina no fígado, no cérebro e no rim, maior a longevidade máxima da espécie. E numa análise de proteínas do plasma de pessoas de 21 a mais de 100 anos, os centenários têm clusterina mais alta do que os adultos jovens e do que os idosos de 76 a 89 anos. Esse dado humano vem de outro estudo, reanalisado aqui. Então veio o teste que interessa. Deram clusterina, por injeção, a camundongos comuns de laboratório com dezoito meses, todo dia por duas semanas. Eles ganharam força de preensão, ficaram mais tempo andando sobre um cilindro giratório sem cair e perderam fibrose no músculo, na gordura, no baço e no fígado, sem mudar de peso. As três citocinas que sustentam a inflamação crônica caíram. Os limites são grandes e os autores escrevem todos. É bicho, e a injeção foi em camundongo, não em gente, sendo que o único dado humano direto veio de células em placa. A longevidade máxima do dourado segue desconhecida. E existe um problema de comparação que eles mesmos levantam, porque os camundongos de laboratório viviam em ambiente estéril e os do deserto não, de modo que parte da diferença pode vir da criação e não da espécie. Duas coisas ficam. A clusterina sobe com exercício, o que liga esse rato do deserto ao músculo treinado de que falamos na semana passada, e à ideia de dose que trabalhamos na edição 72, já que os autores leem essa elevação como resposta de adaptação ao estresse. A outra é o caminho. Alguém reparou num animal que não constava da lista, perguntou por que ele não decai, e foi atrás da resposta. Continua sendo assim que a ciência encontra o que ainda não sabia. |
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| A voz do especialista |
| Longevidade e a importância do aminograma |

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Quando o assunto é longevidade, a questão da proteína ultrapassa a simples contagem de gramas de proteína na dieta. As nuances no aminograma (a quantidade e qualidade dos aminoácidos na matriz alimentar) têm importância. A diferença fundamental entre as proteínas de origem animal e vegetal reside na densidade de aminoácidos essenciais (EAAs), na cinética de absorção plasmática e na proporção de aminoácidos específicos que modulam o envelhecimento. As fontes animais caracterizam-se por uma matriz de digestão rápida e um aminograma completo. Elas entregam alta concentração de aminoácidos de cadeia ramificada (BCAAs), com destaque para a leucina, além de níveis elevados de aminoácidos sulfurados como a metionina. Em contrapartida, as fontes vegetais costumam apresentar menor digestibilidade devido à matriz rica em fibras e antinutrientes, além de limitações específicas: leguminosas são naturalmente baixas em metionina, enquanto cereais tendem a ser deficientes em lisina. Longe de ser uma desvantagem, essa menor concentração de metionina revela-se um trunfo metabólico, pois mimetiza os benefícios da restrição calórica. O custo da ativação crônica da mTOR promovida pela proteína animal O consumo elevado de proteínas animais e, em especial, de dietas ricas em BCAAs deflagra um potente sinal anabólico através da ativação da via PI3K/AKT/mTOR (especificamente o complexo mTORC1). A leucina atua como o principal sensor nutricional para essa cascata. Quando os níveis de aminoácidos no sangue estão persistentemente elevados, a via mTOR permanece continuamente ativada. Esse estado de hiperativação anabólica impõe um severo custo metabólico: o desequilíbrio na gangorra energética celular, onde a hiperativação da via mTORC1 promove a inibição direta da enzima AMPK (AMP-activated Protein Kinase), o sensor mestre da escassez de energia e principal maestro das vias de reparo celular. Enquanto a AMPK ativa programas vitais de manutenção (como a sinalização de FOXO3 para expressão de enzimas antioxidantes, as sirtuínas para o reparo epigenético e do DNA, e a autofagia para a degradação de resíduos), sua supressão via mTOR redireciona todo o orçamento energético da célula para o anabolismo e a síntese proteica. Esse desvio de prioridades tem um preço alto: sem o freio da AMPK, a célula perde a capacidade de corrigir erros no dobramento de proteínas via chaperonas e acumula danos genômicos. Adicionalmente, a abundância metabólica de aminoácidos sulfurados como a metionina acelera o fluxo na cadeia respiratória mitocondrial, elevando a produção de espécies reativas de oxigênio (ROS). Em termos de longevidade, o organismo consome seus recursos promovendo o crescimento ininterrupto enquanto negligencia os mecanismos de reparo e resistência ao estresse, o que acelera senescência celular e eleva o risco de doenças metabólicas, degenerativas e câncer. O ponto de inflexão dos 60 anos Aos 60 anos o dilema fisiológico atinge seu ponto crítico. O organismo passa a enfrentar a resistência anabólica, uma queda acentuada na sensibilidade do tecido muscular aos estímulos da insulina, do exercício de força e dos aminoácidos. A perda de força e funcionalidade muscular sinaliza a instalação da sarcopenia, um dos principais fatores de incapacidade funcional e mortalidade em idosos. Para vencer esse limiar anabólico sem recorrer à hiperativação crônica da via PI3K/AKT/mTOR, torna-se necessário um aporte proteico mais inteligente. Se até a meia-idade o ecossistema metabólico se beneficia de uma moderação proteica baseada em plantas (visando silenciar picos contínuos de leucina e metionina para preservar a sinalização da AMPK e os mecanismos de reparo epigenético e mitocondrial), após os 60 anos a prioridade clínica estende-se urgentemente à preservação da integridade musculoesquelética. A estratégia sugerida por Valter Longo Estudos recentes no campo da longevidade apontam que o segredo não reside apenas em mitigar os aminoácidos pró-envelhecimento, mas em ajustar a razão entre eles, em especial a relação entre metionina e glicina. A glicina atua como um potente agente pró-longevidade: ela atua no fígado para depurar o excesso de grupos metil derivados da metionina (via glicina N-metiltransferase), reduzindo o estresse oxidativo e favorecendo a síntese de glutationa, potente antioxidante endógeno. A proteína animal muscular é rica em metionina, mas relativamente pobre em glicina. Já o colágeno representa uma das poucas fontes animais com altíssima densidade de glicina. Indo além, estudos liderados pelo gerontologista Valter Longo propõem uma abordagem de alto impacto clínico: o uso de uma dieta predominantemente vegetal enriquecida pontualmente em glicina e metionina (seja via suplementação direcionada, peptídeos de colágeno ou misturas proteicas balanceadas). Essa estratégia híbrida poderia contornar a menor biodisponibilidade das plantas, garantindo o aporte necessário para sustentar a síntese proteica e prevenir a sarcopenia, ao mesmo tempo em que poderia neutralizar os danos metabólicos do excesso isolado de metionina e BCAAs. |
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| Ciência na prática |
| Como a falta de um dente impacta a longevidade |

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Quando cai um dente lá no fundo, pouca gente corre para repor. Ele não aparece quando você sorri, a comida continua descendo, e o orçamento do implante é alto. Então aquilo fica para depois. E, com alguma frequência, depois cai outro do mesmo lado. Um estudo japonês publicado esta semana na Scientific Reports acompanhou 3,4 milhões de pessoas com 65 anos ou mais e registrou 405 mil mortes ao longo de quase seis anos. A medida que eles escolheram tem uma diferença pequena e decisiva em relação à que a gente costuma usar. Em vez de somar quantos dentes cada pessoa ainda tinha na boca, eles contaram quantos pares ainda se encontravam. Essa diferença é o estudo inteiro. Mastigar é trabalho de dois dentes, o de cima e o de baixo, apertando a comida entre eles, e por isso um dente sozinho, sem o par que o encontrava, deixa de moer. São quatro pontos de encontro no fundo da boca, dois de cada lado, e é neles que a mastigação de verdade acontece. Quem tinha perdido de um a três desses pontos apareceu com 26% mais risco de morrer do que quem tinha os quatro, e quem não tinha mais nenhum, com 73%. Entre as pessoas que já tinham perdido esses pontos de contato, as que usavam prótese morreram menos do que as que não repuseram nada. Elas não voltaram ao patamar de quem ainda tinha a mordida inteira, ficaram no meio do caminho entre um grupo e outro, e o ganho foi maior justamente entre as que tinham perdido mais. Faz sentido que a prótese não devolva o ponto de partida, porque perder dente costuma vir acompanhado de outras coisas que a prótese não resolve. O próprio estudo mostra isso num resultado que atrapalha a história e que os autores publicaram assim mesmo. Entre quem tinha a mordida inteira e ainda assim usava prótese, a mortalidade foi maior, e eles explicam que precisar de prótese com os quatro pontos preservados costuma sinalizar algum outro problema de saúde por baixo. O limite mais sério da conclusão deste trabalho é, obviamente, financeiro. Colocar e manter uma prótese depende de ir ao dentista, e ir ao dentista depende de renda e de um cuidado geral com a própria saúde, duas coisas que reduzem mortalidade por conta própria. O estudo não tinha escolaridade nem renda para descontar. E a mordida foi reconstruída a partir de código de conta odontológica, e não de exame na cadeira, com os autores admitindo que não sabem o tamanho do erro que isso pode ter trazido. Nada disso descobre que a boca importa. Este trabalho acrescenta mortalidade a um corpo de evidência que já vinha se formando, e que a gente reuniu aqui em 2025, quando tratamos do microbioma bucal, da saliva e da ligação entre saúde da boca, doença cardiovascular e Alzheimer. A boca é a porta de entrada do sistema digestivo e abriga uma das maiores populações de bactérias do corpo. Cuidar dela é um dos trabalhos fundamentais da longevidade, do mesmo tamanho do que a gente faz pelo coração e pelo músculo. |
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| Notícias da semana |
| 💡 A Anvisa derrubou as proibições que travavam remédio no iFood, no Rappi, no Mercado Livre e na Americanas. As resoluções saíram no Diário Oficial de segunda, e a base é a lei de março que passou a permitir que farmácia contrate aplicativo para entregar. Só que a própria agência avisa que derrubar a proibição não autoriza a venda, porque falta a regulamentação. Boa parte das manchetes pulou essa parte. |
| 💡 Uma declaração do colégio americano de cardiologia trata doença do coração, perda de memória e fragilidade como o mesmo problema. O documento é sobre idosos que já têm doença cardiovascular, e propõe enxergar as três como manifestações do mesmo envelhecimento biológico, com exercício estruturado e menos remédios acumulados entre as saídas. Os próprios autores escrevem que as recomendações são de bom senso e se apoiam em evidência limitada e fragmentada. |
| 💡 Vinte equipes avançaram para a final da corrida de 101 milhões do XPRIZE Healthspan, e dez delas levaram um milhão de dólares cada. O desafio é restaurar função muscular, cognitiva e imune em adultos de 50 a 90 anos, com no máximo um ano de tratamento e ganho que dure pelo menos dez. Os ensaios vão até 2029 e o prêmio final sai em 2030. |
| 💡 Duas fabricantes de vitamina foram compradas por conglomerados de consumo em três dias. A japonesa Kirin fechou acordo para comprar a canadense Jamieson, e dois dias antes a Procter & Gamble tinha comprado a Thorne por 3,8 bilhões de dólares. As duas operações ainda dependem de aprovação e devem fechar só no fim do ano. |
| 💡 Demis Hassabis saiu do comando do dia a dia da Google DeepMind. Ele virou presidente do conselho e cientista-chefe da Alphabet, com Koray Kavukcuoglu assumindo a operação e o Gemini. Sundar Pichai escreveu que a mudança libera Hassabis para se dedicar ao futuro da inteligência artificial geral e para seguir à frente da Isomorphic Labs, que foi tema da nossa edição 78. |
| Vale saber |
| Walter Willett, em "Eat, Drink, and Be Healthy" |
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| Antes de fechar |
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